Dólar recua e Bolsa tem forte alta com negociações no Oriente Médio de volta aos holofotes

Dólar recua e Bolsa tem forte alta com negociações no Oriente Médio de volta aos holofotes

Os juros futuros fecharam em forte queda nesta segunda-feira (22), seguindo o cancelamento do leilão de NTN-Bs (Tesouro IPCA+, ou tÃtulos públicos indexados à inflação) por parte do Tesouro.

As curvas das NTN-Bs são indicativas de quanto o mercado está cobrando em termos de rendimentos para comprar tÃtulos públicos. Na prática, elas rendem a variação do IPCA mais um ganho percentual, ou "juro real", no jargão.

A oferta, que seria realizada na terça pela manhã, foi cancelada após estresse nas curvas na semana passada, na esteira da decisão do Copom (Comitê de PolÃtica Monetária) de cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual. O comunicado, considerado "confuso" por parte dos operadores, foi lido como mais suave no combate à inflação, apesar de citar deterioração nas expectativas para o IPCA (Ãndice de Preços ao Consumidor Amplo).

Todos os pontos da curva de DI (Depósito Interbancário), os juros futuros, caÃram nesta sessão. No curto prazo, os contratos para janeiro de 2028 e 2029 perderam 0,1 e 0,15 ponto percentual cada, indo para 14,71% e 14,79%, respectivamente. No médio prazo, a taxa para 2031 recuou 0,16 ponto, para 14,73%. No longo prazo, a taxa para 2035 perdeu 0,19 ponto, para 14,54%.

O dólar, por sua vez, fechou em queda de 0,61%, cotado a R$ 5,142, e a Bolsa disparou 1,2%, a 170.370 pontos, com impulso do fluxo estrangeiro. Itaú, em alta de mais de 2%, puxou o Ibovespa para cima. Azzas disparou quase 11%.

O cancelamento do leilão foi lido pelo mercado como uma forma do Tesouro acalmar as preocupações dos investidores. Desde a decisão do Copom e do Fed (Federal Reserve, banco central dos EUA) na semana passada, tanto as taxas de juros futuros quanto as dos tÃtulos NTN-Bs dispararam, em sinal de estresse entre o mercado.

"O cancelamento desta semana é um recado claro de que o Tesouro observa um mercado bastante negativo, em especial nas NTN-Bs e prefixados", dizem Luis Felipe Vital, CecÃlia Mazzoni e Felipe Figueiró, analistas da Warren, em relatório.

Antes da decisão do Copom, a NTN-B com vencimento para maio de 2029, por exemplo, estava com juro real em 8,39%. Na sexta-feira (19), foi a 8,82%; nesta segunda, após o cancelamento do leilão, voltou para 8,75%. A maior parte dos vencimentos, com exceção dos contratos de 2028 e 2031, apresentou queda nesta sessão.

Mesmo com a desvalorização, os tÃtulos continuam próximos à s máximas históricas, já superando os rendimentos de 8% vistos no auge da crise do governo Dilma Rousseff (PT) entre 2015 e 2016.

Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, afirma que o cancelamento do leilão de NTN-B pelo Tesouro poderia ser um primeiro passo antes de uma operação de recompra âisto é, uma intervenção do Tesouro no mercado de tÃtulos públicos.

Há pouco mais de três meses, o Tesouro interviu no mercado ao suspender a emissão de NTN-Bs e recomprar recordes R$ 49 bilhões em papéis, visando dar fôlego a um mercado que estava à espera de cortes na Selic e foi tomado pelo pessimismo da guerra no Oriente Médio.

O corte na Selic e a manutenção da taxa pelo Fed, em um comunicado considerado "hawkish" (duro no combate à inflação), reforçaram, para o mercado, que as perspectivas para o IPCA são de alta.

O Copom, ao expandir o horizonte relevante para o cumprimento da meta de inflação, deixou o ponto de chegada mais distante, desancorando as expectativas para o Ãndice.

O Fed, por sua vez, apontou para uma postura mais contracionista, o que pode pressionar a inflação brasileira pelo câmbio. Quanto maior o juro nos Estados Unidos, pior para ativos de mercados emergentes, já que a renda fixa norte-americana é considerada um investimento praticamente livre de risco e, com os Fed Funds em alta, exibe retorno atrativo.

Nesta segunda, o Boletim Focus apontou que a previsão para o IPCA de 2026 subiu de 5,3% para 5,33%; a Selic, como resposta direta à pressão inflacionária, foi de 13,75% para 14%.

Ao mesmo tempo, nesta manhã, o Banco Central injetou liquidez no mercado de câmbio à vista ao realizar dois leilões simultâneos: um de US$ 1 bilhão em moeda à vista e outro de 20 mil contratos no valor de US$ 1 bilhão de swap cambial reverso âuma operação cujo efeito é equivalente à compra de dólares no mercado futuro.

As duas operações simultâneas são conhecidas como "casadão" e visam oferecer liquidez ao mercado. O efeito delas sobre as cotações do dólar é, em tese, nulo, já que o BC vendeu US$ 1 bilhão em uma ponta e comprou US$ 1 bilhão em outra.

Essa operação dupla impede que as taxas de juros em dólar no Brasil, conhecidas como cupom cambial, subam e reduzam o apelo do elevado diferencial de juro do real.

"Não resolve a questão fiscal ou polÃtica do paÃs, porém, melhora a liquidez do mercado temporariamente", disse Daniel Balaban, corretor da XP em Nova York.

O noticiário geopolÃtico também afetou as negociações. Segundo os paÃses mediadores Qatar e Paquistão, a primeira rodada de negociações entre Irã e Estados terminou nesta segunda, noite de domingo no Brasil.

Em declaração conjunta, eles afirmam que ambos os paÃses concordaram com um roteiro para chegar a um acordo final em 60 dias. As negociações técnicas continuarão durante o resto da semana no resort de montanha suÃço de Bürgenstock, de propriedade do Qatar, segundo o comunicado, divulgado pelo Ministério das Relações Exteriores do Catar.

Até então, o mercado questionava a efetividade do memorando de entendimento assinado na semana passada. Os avanços anunciados pelos paÃses mediadores, no entanto, amenizam as dúvidas que, até então, estavam fomentando a busca por segurança nos mercados.

"As negociações contribuem para reduzir a percepção de risco geopolÃtico dos investidores e favorecem o desempenho de ativos de maior risco, entre eles o real, exercendo pressão baixista sobre a taxa de câmbio", diz Mattos.

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