Especialistas sabem menos do que gostam de admitir

Especialistas sabem menos do que gostam de admitir

Como sabemos o que funciona? Em um mundo incerto, cheio de tratamentos não testados, polÃticas controversas e invenções não experimentadas, essa deveria ser uma pergunta urgente. Para um jovem alfaiate empobrecido chamado Franz Reichelt, a resposta foi: descobrimos da maneira mais difÃcil.

Em fevereiro de 1912, em uma manhã fria de domingo, Reichelt convenceu jornalistas, uma equipe de filmagem e uma pequena multidão a assistirem à demonstração de seu novo paraquedas vestÃvel. A história oficial era que Reichelt jogaria um boneco do primeiro andar da Torre Eiffel, a mais de 50 metros de altura. Reichelt, no entanto, havia avisado os jornalistas de que ele mesmo faria o salto. Caso contrário, suspeita-se, haveria menos espectadores.

O paraquedas é, por acaso, uma espécie de piada recorrente nas polÃticas baseadas em evidências. Na edição de Natal de 2003 do British Medical Journal, o obstetra Gordon CS Smith e a pesquisadora de saúde pública Jill Pell publicaram uma revisão sistemática sobre "Uso de paraquedas para prevenir morte e trauma grave relacionados ao desafio gravitacional".

Eles observaram, com falso pesar, que "não conseguimos identificar nenhum ensaio clÃnico randomizado controlado de intervenção com paraquedas" e pediram que "os protagonistas mais radicais da medicina baseada em evidências" organizassem e participassem de um rigoroso ensaio randomizado do paraquedas.

Caso a piada tenha passado despercebida, o argumento satirizado é uma queixa dos defensores de polÃticas baseadas em evidências. Muitas práticas médicas bem estabelecidas âjunto com ideias em policiamento, justiça criminal, educação, economia e alémâ nunca foram seriamente testadas pelo padrão-ouro das evidências: um ensaio clÃnico randomizado controlado duplo-cego (ECR). Os defensores dos ECRs sugerem que isso é um escândalo. Será?

Deixe essa pergunta no ar por um momento, porque 15 anos depois ânovamente na edição de Natal do BMJâ uma equipe de pesquisadores detonou uma bomba de evidências. Eles haviam conduzido o tão esperado ensaio randomizado do paraquedas âe descobriram que paraquedas não eram melhores em prevenir lesões graves ou morte do que uma mochila vazia.

Qualquer pessoa surpresa com esse resultado precisa apenas consultar as letras miúdas: ninguém no ensaio havia sofrido qualquer lesão digna de nota após saltar de uma aeronave, e isso porque o fizeram "em altitude significativamente mais baixa... e velocidade mais baixa". Para ser mais especÃfico, eles saltaram de "pequenas aeronaves estacionárias no solo". Mais uma sátira hilária do BMJ.

Há lições sérias aqui, para aqueles que conseguem parar de rir. A primeira é que, sim, não há necessidade de um ECR de uma tecnologia âcomo o paraquedasâ cujos benefÃcios são indiscutÃveis. A segunda é que os próprios ECRs não necessariamente provam nada: os pesquisadores sugerem "extrapolação cautelosa para saltos em alta altitude".

à impressionante quão imprudente a extrapolação pode ser, particularmente em comunicados de imprensa e resumos midiáticos sensacionalistas. Um pequeno estudo de crianças de creche desenhando é generalizado para se tornar uma teoria completa da motivação humana. Grandes alegações sobre os benefÃcios ou riscos de um aditivo alimentar se equilibram sobre a base questionável de pesquisas em camundongos de laboratório.

A randomização não é nem a única rota para o conhecimento, nem uma garantia de verdade eterna. Mas é uma ideia muito boa âo que pode ajudar a explicar por que houve ensaios randomizados sérios, mesmo de paraquedas. Como Andrew Leigh explica em "Randomistas" (2018), "experimentos sobre eficácia e segurança de paraquedas são generalizados".

Alguns deles usam bonecos de teste, enquanto outros investigam detalhes de técnica ou equipamento: paraquedistas têm seis vezes mais chances de sofrer uma entorse de tornozelo se saltarem sem uma tornozeleira. Pois é.

Uma razão importante para usar alguma forma de randomização é que ela elimina todos os tipos de potenciais fatores de confusão. Turmas pequenas ajudam os alunos a prosperar? Você não vai descobrir isso simplesmente comparando uma escola pública superlotada e sem recursos da periferia com uma escola particular generosamente financiada: os tamanhos das turmas podem diferir, mas todo o resto também difere. Se você quer aprender sobre aprendizagem, conduza um experimento randomizado.

A segunda razão, ainda subestimada, é que os especialistas sabem menos do que gostam de pensar. Médicos abraçaram a sangria por 2.000 anos antes de tardiamente reconhecerem que raramente é um tratamento apropriado. (A revista The Lancet tem esse nome em homenagem a uma ferramenta de sangria.)

Mais recentemente, como Helen Pearson observa em "Beyond Belief" (2026), "Na Grã-Bretanha dos anos 1980... era prática padrão raspar os pelos pubianos de mulheres grávidas quando eram admitidas no hospital e dar-lhes enemas". Episiotomias também âcortes na abertura da vaginaâ eram "bastante rotineiras". Nada disso era baseado em evidências. Apenas parecia aos médicos que seria uma ótima ideia.

No verão de 2020, quando o ensaio Recovery revelou que um esteroide barato, a dexametasona, era enormemente benéfico para pacientes de Covid-19 submetidos à ventilação mecânica, um médico me disse que essa suposta descoberta era simples bom senso.

Mas Martin Landray, um dos lÃderes do ensaio, lembra das cartas que especialistas haviam enviado a ele e aos reguladores alertando que a dexametasona âque suprime o sistema imunológicoâ era tão perigosa para pacientes de Covid que era antiético até mesmo testá-la. Quando alguns especialistas pensam que é um paraquedas, e outros pensam que é sangria, é uma boa ideia conduzir o ensaio.

O que acontece quando você precisa de uma decisão urgentemente, e evidências padrão-ouro não existem? Uma abordagem é fazer o que Landray e seus colegas fizeram: agir rápido. Ao introduzir um ensaio clÃnico simples junto com os cuidados de rotina, eles conseguiram colocar o ensaio em funcionamento em 10 dias e produzir resultados que salvaram vidas em 100.

Mas e se não houver ensaio, nem perspectiva de um? Então, argumenta Pearson, precisamos de evidências "padrão alumÃnio". Seja o mais claro possÃvel sobre sua hipótese, divida-a em uma cadeia de elos causais e obtenha os melhores dados que puder âa favor e contraâ para testar cada elo da cadeia. Ouro é melhor, mas alumÃnio é barato e leve e à s vezes suficiente para o trabalho.

Franz Reichelt era melhor publicitário do que projetista de paraquedas. Seu salto da Torre Eiffel foi capturado para a eternidade no cinejornal Pathé-Journal. Eu desaconselharia assistir. Ele morreu com crânio e coluna fraturados, e âtalvezâ de uma parada cardÃaca durante a queda.

A Wikipédia simplesmente lista sua causa de morte como "falha do paraquedas". A autoconfiança de um pioneiro é algo poderoso. Normalmente, quando os especialistas propõem soluções não testadas, não são eles que sofrem as consequências.

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