O presidente do Banco Central, Gabriel GalÃpolo, afirmou nesta quinta-feira (25) que o Copom (Comitê de PolÃtica Monetária) pode ter errado ao tentar "explicar demais" o último corte da taxa básica de juros na semana passada, negou falta de transparência no comunicado sobre a decisão e refutou motivações eleitorais.
Na decisão do Copom (Comitê de PolÃtica Monetária) da semana passada, quando fez um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, a Selic, para 14,25% ao ano, o BC optou por uma condução mais suave dos juros ao olhar de forma antecipada para o cenário inflacionário do primeiro trimestre de 2028, o que causou ruÃdos no mercado financeiro, elevando o dólar e os juros futuros.
Para especialistas ouvidos pela Folha após o corte, a comunicação foi confusa e não esclareceu satisfatoriamente a decisão de continuar afrouxando a taxa básica de juros do paÃs em um momento em que os Ãndices inflacionários seguem subindo para além do teto da meta estabelecida pelo BC.
"A imprensa especializada apontou com razão que o problema foi [mais] tentar explicar demais do que falta de transparência", disse GalÃpolo em entrevista a jornalistas. Segundo ele, incluir o parágrafo que tentou sintetizar a decisão "pode ter sido complexo".
O presidente do BC também afirmou que nenhum Banco Central do mundo tem estabelecido tendências para as futuras decisões relacionadas à taxa básica de juros (guidance).
"Em momentos de maior incerteza é normal esse desejo por algum tipo daquilo que a gente chama de guidance, ou seja, por sinalizações do que o Banco Central fará no futuro, que ele possa sinalizar hoje o que ele fará no futuro", disse GalÃpolo.
O cenário inflacionário do inÃcio de 2028, chamado de horizonte relevante, passaria a ser alvo oficial do BC no próximo encontro do Copom, previsto para 4 e 5 de agosto. Na decisão da última semana, o foco previsto para a tomada de decisão sobre a Selic seria o último trimestre de 2027.
Na ata, divulgada na terça-feira (23), o BC escreveu que a piora nas projeções de inflação para o fim de 2027 exigiria "variações abruptas de direção e de grande magnitude" na taxa básica de juros para colocar a inflação na meta, de 3%.
O presidente do BC também refutou as crÃticas de que a decisão da última semana pode ter sido motivada pelas eleições presidenciais deste ano. "Se você entende como funcionam as defasagens de polÃtica monetária, não tem cabimento falar que qualquer decisão de hoje terá efeitos na economia que terá impacto na eleição", disse.
O diretor de PolÃtica Monetária, Paulo Pichetti, complementou que, caso o BC não tivesse tomado a escolha de expandir o olhar para o cenário inflacionário de 2028, uma decisão dura teria de ser tomada, o que poderia causar "desaceleração desordenada" na atividade econômica.
Pichetti argumentou que mesmo se o BC tivesse "dobrado ou triplicado" a Selic para levar a inflação à meta no fim de 2027, "não irÃamos abrir o estreito de Hormuz nem impedir que o El Niño nos visitasse, mas causaria efeitos de volatilidade". "Foi uma situação muito especial que levou a gente a chamar atenção ao conjunto de comunicado", afirmou.
Segundo Pichetti, o Copom sabia que haveria reação ao comunicado, por ser "muito diferente do usual". "A gente optou pela transparência, porque, justamente, era uma decisão que tinha que ser bem qualificada", falou. "Agora, surpreendentemente, a gente achou que essa reação vinha no sentido de a gente ser claro demais, na verdade, teve uma reação no sentido de ele falar que foi bastante confuso", disse.
A projeção de inflação é elevada ao final de 2027 devido a um "choque de oferta", segundo o diretor, o que se dissiparia já no inÃcio de 2028. Por isso, disse ele, o BC optou por expandir seu horizonte relevante de forma excepcional na decisão da semana passada.
Em relação à colocação de um guidance, o diretor de PolÃtica Monetária afirmou que esse movimento poderia limitar o "grau de liberdade" do BC de agir na próxima reunião, em agosto.
O presidente Gabriel GalÃpolo disse que vê com naturalidade as crÃticas à decisão da semana passada. "Acho que vocês já me viram aqui em vários momentos defendendo o direito de quem critica a polÃtica monetária e agradecendo a maneira elogiosa, muitas vezes, como a gente é criticado em função da polÃtica monetária, então acho que isso é absolutamente normal", disse.
Nesta quinta, o Banco Central divulgou o Relatório de PolÃtica Monetária, documento divulgado a cada três meses com as projeções macroeconômicas e cenários que a autoridade monetária vê para a economia. No documento, o BC elevou a projeção de crescimento econômico em 2026 de 1,6% para 2%.
O dólar fechou em queda de 0,37% nesta quinta, cotado a R$ 5,18, com investidores repercutindo declarações de GalÃpolo. O Ibovespa fechou com ganhos de 0,87%, a 171.990 pontos.
Os investidores interpretaram as falas dos dirigentes como um reforço à ideia de busca da meta de inflação no horizonte relevante âhoje no quarto trimestre de 2027. Os juros futuros, em resposta, reduziram as perdas nos vértices de curto e médio prazo, enquanto os de longo prazo viraram para alta.
No fim da tarde, taxa do DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 estava em 14,24%, em baixa de 0,07 ponto percentual. Já a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 14,3%, alta de 0,09 ponto.
Tales Barros, lÃder de renda variável da W1 Capital, afirma que as falas dos dirigentes funcionaram "mais para esclarecimento do que para formação de preço".
"GalÃpolo reconheceu o ruÃdo gerado pelo comunicado, assumiu responsabilidade e sinalizou a intenção de tornar os próximos comunicados mais concisos, reservando essas explicações para a ata, mas ressaltou que, a princÃpio, não tem mudança na condição da polÃtica monetária", afirma ele.
Daqui para frente, afirma Eduardo Amorim, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, o desafio do Copom está em alinhar discurso e ação, evitando que a comunicação seja interpretada como tolerância maior com a inflação.
"Se GalÃpolo conseguir reforçar uma postura técnica, cautelosa e comprometida com a convergência da inflação à meta, parte dos prêmios de risco pode continuar sendo devolvida. Por outro lado, qualquer percepção de flexibilização excessiva pode reacender a pressão sobre juros."