Obramax aposta R$ 13,5 bilhões em expansão apesar de juros altos e desaceleração da construção

Obramax aposta R$ 13,5 bilhões em expansão apesar de juros altos e desaceleração da construção

Enquanto a construção civil dá sinais de perda de fôlego diante dos juros elevados, do crédito mais caro e da Guerra no Irã, a Obramax decidiu pisar no acelerador. A rede de atacarejo de materiais de construção, pertencente ao mesmo grupo da Leroy Merlin, prevê investir R$ 13,5 bilhões para abrir entre oito e dez lojas por ano nos próximos três anos.

A aposta parece caminhar na contramão do mercado. Dados recentes mostram desaceleração das vendas e maior dificuldade de acesso ao financiamento imobiliário. Para Michael Reins, CEO da companhia, porém, o momento exige visão de longo prazo.

"Se olharmos apenas o ciclo atual, ninguém investiria. Mas estamos falando de um mercado que continua enorme e estruturalmente carente de produtividade", afirma em entrevista à Folha.

De acordo com o executivo, a Obramax ocupa um espaço diferente daquele explorado pela Leroy Merlin. Enquanto a varejista tradicional se concentra em consumidores que buscam decoração, reforma e inspiração para a casa, a Obramax mira o profissional da construção.

"O pedreiro, o eletricista, o encanador, o pequeno construtor precisam de praticidade. Eles querem encontrar o produto rapidamente, pagar um preço competitivo e voltar para a obra. Nosso negócio gira em torno da racionalidade e da eficiência", diz.

Hoje, afirma, cerca de 85% dos clientes pertencem às classes C e D, público que já se acostumou ao modelo de atacarejo em supermercados, mas que encontrava poucas opções semelhantes no segmento de materiais de construção.

O executivo avalia que o setor atravessa uma combinação de fatores negativos. O principal deles é o custo do dinheiro.

"Com juros de longo prazo na faixa de 11% a 12% ao ano, fica muito difÃcil financiar imóveis ou grandes reformas. O endividamento das famÃlias continua elevado e isso afeta diretamente a demanda."

Ele também cita o aumento do comprometimento da renda das famÃlias com apostas online, fenômeno que, segundo ele, passou a aparecer nas conversas com consumidores e fornecedores.

Ao mesmo tempo, a indústria de materiais tenta repassar aumentos de custos provocados por matérias-primas mais caras e por incertezas internacionais.

"à uma discussão difÃcil porque o mercado está mais fraco. Não faz sentido aumentar preços 10% ou 15% quando o consumidor está comprando menos. Em muitos casos, precisamos absorver parte dessa pressão para manter nossa proposta de ser a opção mais barata."

A expansão planejada pela empresa traz desafios que vão além do financiamento. Um dos principais gargalos está na contratação de funcionários.

Cada nova unidade demanda cerca de 140 trabalhadores, sobretudo na área logÃstica. Em algumas regiões, a disputa por mão de obra se tornou intensa.

"No Mato Grosso, por exemplo, há localidades com desemprego perto de 2,5%. Concorrer por profissionais com centros de distribuição, operadores logÃsticos e empresas de comércio eletrônico virou um desafio diário."

A companhia também enfrenta a tradicional demora nos processos de licenciamento ambiental e de obtenção de autorizações municipais para construir lojas com cerca de 18 mil metros quadrados.

Embora opere em um segmento tradicionalmente associado às vendas presenciais, a empresa aposta no avanço dos canais digitais para aumentar a produtividade.

"O profissional da construção passa o dia em movimento e resolve muita coisa pelo celular. O WhatsApp já virou ferramenta de trabalho. Por isso, desde o inÃcio adotamos uma estratégia omnichannel."

A empresa prepara o lançamento de um novo aplicativo e testa soluções de inteligência artificial voltadas para atendimento e relacionamento com clientes.

Segundo Reins, a tecnologia deve aumentar a eficiência, mas ainda está longe de substituir o trabalho realizado nos canteiros.

"A construção civil é uma das atividades mais protegidas contra a automação. Existe uma enorme quantidade de decisões e imprevistos que exigem presença fÃsica e experiência humana."

Na avaliação do executivo, um problema mais urgente é o envelhecimento da força de trabalho. Com mais jovens buscando formação universitária, faltam profissionais dispostos a seguir carreiras técnicas na construção.

"Existe uma percepção equivocada de que são profissões de menor valor. Na verdade, estamos falando de ocupações cada vez mais especializadas e que tendem a ser mais valorizadas pela escassez ."

A preocupação levou a empresa a ampliar iniciativas de capacitação, como a Academia dos Profissionais, programa gratuito voltado à formação técnica.

Questionado sobre a reforma tributária, Reins afirma que a simplificação do sistema é positiva, mas diz que ainda há incertezas sobre os impactos finais para o setor.

"A simplificação é necessária. O problema é que ainda não sabemos exatamente qual será a carga efetiva. Se houver aumento de tributação, será difÃcil imaginar que isso não tenha reflexo nos preços."

Mesmo diante das incertezas econômicas e da restrição ao uso de instrumentos, como os Certificados de RecebÃveis Imobiliários (CRI) entre empresas do mesmo grupo econômico, a companhia afirma ter recursos para sustentar seu plano de crescimento.

Segundo o executivo, a expansão será financiada principalmente pelo controlador estrangeiro, que mantém confiança no potencial do mercado brasileiro.

"O Brasil tem volatilidade, tem risco cambial e tem ciclos econômicos difÃceis. Mas nosso acionista acredita no longo prazo. Os investimentos que estamos fazendo hoje não são para os próximos dois anos. São para as próximas décadas."

Raio-X | OBRAMAX

- Fundação: 2015 no Brasil, com primeira loja aberta em 2018

- Sede: São Paulo

- Lojas: 14

- Funcionários: cerca de 3.000

- Faturamento: R$ 2,5 bilhões (2025)

- Concorrentes: Sodimac, Telhanorte, Joli

← Economy