Empresário chinês é condenado nos EUA a 30 anos de prisão por fraude de US$ 550 milhões

Empresário chinês é condenado nos EUA a 30 anos de prisão por fraude de US$ 550 milhões

O empresário chinês Guo Wengui, que se transformou de um insider de Pequim, crÃtico do regime local e aliado da extrema direita norte-americana, foi condenado a 30 anos de prisão na segunda-feira (29) por fraudar investidores, incluindo muitos de seus próprios seguidores fervorosos, em cerca de US$ 550 milhões.

Guo fez fortuna como incorporador imobiliário, forjou uma aliança com um oficial de inteligência corrupto, fugiu da China em 2015 e passou a viver em uma cobertura de US$ 68 milhões em Nova York com vista para o Central Park. Lá, ele passou a usar as redes sociais e o YouTube para denunciar o Partido Comunista Chinês e atrair milhares de seguidores convencidos de que Guo usaria sua riqueza e conhecimento privilegiado para levar a democracia à China.

Ele conquistou a confiança dos inúmeros seguidores e convenceu-os a comprar ações de sua empresa de mÃdia, associações duvidosas a clubes e uma criptomoeda falsa que ele prometia que os tornaria todos inimaginavelmente ricos.

Guo, também conhecido como Miles Kwok, usou esse dinheiro para financiar um estilo de vida luxuoso, comprando uma propriedade rural em New Jersey, uma mansão em Greenwich e um supercarro Bugatti de US$ 4,4 milhões. Ele foi preso em seu apartamento em Nova York em 2023 e condenado em tribunal federal no ano seguinte por conspiração de extorsão, fraude de valores mobiliários e conspiração de lavagem de dinheiro.

A juÃza Analisa Torres, do Tribunal Distrital dos EUA em Manhattan, disse na segunda-feira que Guo havia "se aproveitado de pessoas que buscavam levar a democracia à China", causando-lhes "danos financeiros e emocionais substanciais".

Ela aplicou uma sentença de 30 anos, a pena solicitada pelos promotores federais, que haviam comparado os crimes de Guo aos do notório fraudador Bernard Madoff.

Guo estava com uma postura bem diferente. Outrora esbelto e elegantemente vestido em seus caracterÃsticos ternos Brioni, ele entrou no tribunal com um uniforme prisional bege de duas peças. Parecia ter ganhado peso nos anos desde seu julgamento. Seu cabelo escuro, cortado curto, havia grisalhado.

Sua sentença, originalmente marcada para novembro de 2024, foi adiada depois que o ex-bilionário, que havia declarado falência anteriormente, pediu novos advogados nomeados pelo tribunal.

A audiência de segunda-feira também começou atrasada, depois que Guo foi levado ao hospital na manhã daquele dia por causa de uma queda. Ele alegou ter vomitado e sangrado e passou a maior parte de suas declarações âpossivelmente o último discurso público que fará por 25 anos ou mais âem uma diatribe contra um promotor que o havia chamado de simulador.

Depois de se estabelecer em Nova York em 2015, Guo agiu rapidamente para construir uma rede polÃtica nos EUA semelhante à que havia deixado na China. Em 2017, ele era membro do Mar-a-Lago, o resort do presidente recém-eleito em Palm Beach, Flórida.

Antes de sua prisão, Guo construiu conexões polÃticas e comerciais com algumas pessoas poderosas no cÃrculo do presidente Donald Trump. Entre elas estava Steve Bannon, ex-assessor de Trump, que tinha um contrato de consultoria de US$ 1 milhão para assessorar Guo e sua empresa de mÃdia.

Os dois homens formaram uma aliança, com Guo promovendo o podcast de Bannon em sua rede de mÃdia em lÃngua chinesa. Bannon estava ao seu lado em junho de 2020 quando Guo, com a Estátua da Liberdade como pano de fundo, anunciou a criação do "Novo Estado Federal da China". Peter Navarro, outro assessor de Trump, seria o "embaixador internacional" do governo paralelo.

"A partir de hoje, o Partido Comunista não é o governo legÃtimo da China!", declarou Guo. Alguns meses depois, ele lançou uma música chamada "Take Down the C.C.P." (Derrube o P.C.C.), em alusão ao Partido Comunista Chinês, que brevemente ocupou o primeiro lugar na parada do iTunes.

Enquanto estava a bordo do iate de Guo, o Lady May, em agosto de 2020, Bannon foi preso sob acusações de fraudar investidores. Posteriormente, Trump aplicou o perdão ao ex-assessor.

Mais tarde, em 2020, Guo entrou na campanha presidencial. Foi em sua rede de mÃdia que material de um laptop pertencente a Hunter Biden, filho do futuro presidente, apareceu pela primeira vez. Em 10 de outubro daquele ano, Guo recebeu Bannon e Rudy Giuliani, advogado de Trump e ex-prefeito de Nova York, em sua cobertura para jantar e charutos, informou o The New York Times.

Mas Trump perdeu aquela eleição, e nos anos seguintes, Guo se concentrou em captar recursos de suas fileiras crescentes de apoiadores. Ryan B. Finkel, um dos promotores, disse que 235 vÃtimas haviam dado depoimentos, muitas delas alegando ter perdido todas as suas economias. Uma das vÃtimas afirmou que havia perdido a vontade de viver.

Torres disse que o governo dos EUA disporia dos bens apreendidos após a prisão de Guo âincluindo as mansões, o supercarro e dinheiroâ e usaria o valor para ressarcir as vÃtimas.

Apesar das alianças polÃticas de Guo, um perdão presidencial parece improvável. Em 2017, Trump considerou deportar Guo para a China, onde ele enfrentava uma série de acusações criminais decorrentes de sua aliança com um alto funcionário da espionagem chinesa, Ma Jian, cuja prisão por acusações de corrupção no inÃcio de 2015 havia levado Guo a fugir do paÃs.

Em ambos os lados do PacÃfico, Guo praticava uma forma implacável de negócios.

Na China, quando um vice-prefeito de Pequim se interpôs no caminho do desenvolvimento de um terreno de Guo próximo a uma das sedes das OlimpÃadas de 2008, Guo obteve uma gravação mostrando o oficial fazendo sexo com uma amante. O oficial foi destituÃdo e recebeu uma sentença de morte por suborno, que posteriormente foi suspensa.

Nos EUA, apoiadores de Guo perseguiram um administrador judicial que supervisionava a liquidação de suas propriedades, acusando-o de ser um instrumento do Partido Comunista Chinês. Eles até se reuniram do lado de fora da escola em Massachusetts onde a filha do administrador trabalhava, segurando cartazes como um que dizia: "Como você se sente vivendo às custas da tentativa de extorsão de um dissidente chinês pelo seu pai?"

Guo reservou suas palavras mais duras para os lÃderes chineses de alto escalão e suas famÃlias. No inÃcio de 2017, após dois anos mantendo um perfil discreto, o empresário usou as redes sociais para acusar a elite governante do Partido Comunista de corrupção.

Isso fazia parte de um longo esforço para se reinventar como um ativista polÃtico de princÃpios, e durante o julgamento, seus advogados afirmaram que suas ações haviam sido em busca de uma China democrática. A alegação não convenceu o júri.

"Miles Guo é um verdadeiro ativista polÃtico ou não? Eu não sei, não me importo e vocês também não deveriam", afirmou Juliana Murray, promotora federal assistente, ao júri quando o julgamento estava chegando ao fim. "Ele é um oportunista. Ele é um fraudador."

Ainda assim, dezenas de apoiadores de Guo lotaram o tribunal na segunda-feira, enquanto mais de 100 outros assistiam em uma sala auxiliar. Depois de ser sentenciado, Guo se virou e sorriu para eles. Muitos juntaram as mãos em um gesto de respeito.

Enquanto era escoltado para fora, Guo agradeceu a eles e gritou em mandarim: "Isso está apenas começando!"

← Economy