
A proximidade do fim da cota de exportação para a China mudou a realidade das companhias exportadoras de carne no Brasil. A Frigol, por exemplo, deu férias coletivas para trabalhadores de uma das plantas, no Pará, na primeira quinzena de julho. A Minerva, por outro lado, mudou a estratégia e exportará para o paÃs asiático a partir das plantas na Argentina, Colômbia e Uruguai.
Em nota, a Frigol disse que a medida âdecorre da expectativa de preenchimento iminente da cota anual de importação de carne bovina estabelecida pela China para o Brasil, principal destino da produção da unidade paraense". Atualmente, cerca de 70% do volume produzido na planta de Ãgua Azul do Norte (867 km de Belém) é destinado ao mercado chinês.
Após o perÃodo de férias, a expectativa é que a unidade de Ãgua Azul do Norte opere com redução aproximada de 30% em seu volume de produção. Nas demais unidades da companhia, a redução estimada é de cerca de 20%, sem interrupção das operações.
"A Frigol avalia que o perÃodo de ajuste poderá contribuir para o reequilÃbrio entre oferta e demanda de gado para abate, favorecendo uma adequação dos preços da matéria-prima, das margens industriais e das condições de mercado ao longo dos próximos meses, minimizando os impactos financeiros para a cadeia produtiva", afirma a empresa em nota enviada à Folha.
A Minerva confirmou que as unidades no Brasil devem continuar produzindo para abastecer o mercado americano, enquanto usará unidades em paÃses vizinhos, como Argentina, Uruguai e Colômbia, para continuar exportando à China.
Para Marcos Jank, coordenador do núcleo Insper Agro Global, os frigorÃficos precisam se adequar à nova realidade e buscar ampliar a participação em outros mercados, como nos Estados Unidos. "Os EUA não vão taxar. O tarifaço deles não se aplica à carne", aponta ele. "O mundo está complicado. Há muita restrição ao comércio hoje. São restrições ad hoc, caso a caso, o que acaba prejudicando a exportação, que vinha com um resultado muito bom até agora."
Em 2025, a China fixou cotas para seus fornecedores de carne bovina, incluindo Austrália e Estados Unidos, como forma de proteger a produção local. A cota brasileira é de 1,106 milhão de toneladas â abaixo do volume de 1,7 milhão de toneladas exportado no ano anterior. Dentro dessa cota, a tarifa é de 12%. O que ultrapassa esse limite é tributado em mais 55%, levando a uma tributação total de 67%.
Pelos dados mais recentes do governo chinês, o Brasil havia utilizado 65,4% até maio. A Abiec (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes) estima, no entanto, que a utilização da cota já esteja próxima dos 100%, já que há um intervalo de até 60 dias entre o embarque da carne no Brasil e a contabilização da carga na China.
"A expectativa é que, com o esgotamento da cota, os importadores chineses reduzam temporariamente as compras e retomem os negócios de forma mais intensa apenas no último trimestre, quando os embarques já passarão a contar para a cota de 2027", afirma a entidade em nota.
Jank diz que a paralisação das atividades de algumas plantas é natural. "Cada player foi tentando preencher a cota e vender o máximo possÃvel no primeiro semestre e vai faltar no segundo semestre. Então, haverá alguma desaceleração no mercado", complementa o especialista.
"Eu acho que eles não vão mudar a regra do jogo agora, mas eu acredito que eles mudariam se eles tivessem algum problema de aumento de preço, de inflação ou falta de produtos. Mas é bem verdade que a carne bovina não é a principal carne deles", diz Jank.