
O interesse pela importação de carros desmontados ou parcialmente montados no Brasil não é exclusivo das novas marcas chinesas. O aumento da concorrência e o peso da tributação sobre o setor tem levado outras empresas a considerar a adoção dos sistemas CKD e SKD.
Os exemplos recentes vêm dos grupos Renault, Stellantis e General Motors, que investem, respectivamente, na montagem de kits de carros da Geely, da Leapmotor e da Wuling (sob a marca Chevrolet) em fábricas instaladas no paÃs.
Todos os modelos que estão sendo nacionalizados têm seus componentes produzidos na China. Em abril, estudo da consultoria Zag Work mostrou que a economia proporcionada pela integração de fornecedores e por custos menores nas áreas de pesquisa e desenvolvimento, vendas e administração aumenta a competitividade do paÃs asiático.
"A discussão [sobre os sistemas CKD e SKD] começa a ficar atraente para fabricantes já instaladas no paÃs, e isso ocorre principalmente na faixa de preço entre R$ 150 mil a R$ 300 mil, em que há maior rentabilidade e uma complexidade muito grande de tecnologias", diz Rogelio Golfarb, que foi vice-presidente da Ford na América do Sul e é o fundador da Zag Work. "A escala nessa faixa de preço caiu brutalmente por empresa e por produto."
Daà vem as principais queixas da Anfavea (associação das montadoras), que vê a indústria nacional sob ameaça de encolhimento. Caso a importação de carros praticamente prontos prevaleça, há riscos de as fabricantes aqui instaladas reduzirem investimentos, promoverem cortes e assumirem o pagamento de tributos mais altos sobre a comercialização.
Golfard lembra que o Brasil não produz grande parte das tecnologias presentes nos carros eletrificados e nem desenvolveu uma indústria capaz de aproveitar a matéria-prima disponÃvel. "Temos os minerais, mas não temos uma polÃtica para lidar com esses insumos."
Quanto à questão tarifária, a inclusão dos automóveis no Imposto Seletivo âque substitui o IPI (Imposto sobre Produtos Industrializados) a partir de 1º de janeiro de 2027â pode definir como será o futuro da produção nacional de automóveis.
O peso da reforma tributária será muito maior do que qualquer sistema de cotas. Neste momento, há isenção do Imposto de Importação sobre kits de peças para veÃculos eletrificados válida até o valor total de US$ 463 milhões. Trata-se de uma prorrogação anunciada na última semana pelo Gecex-Camex (Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior) após pedidos da BYD.
"Do ponto de vista prático, [a renovação da cota] não muda nada, é inócua", afirma Rogelio Golfarb, da Zag Work. Não se pode conduzir um setor tão importante com polÃticas de curto prazo; são necessárias, sim, polÃticas estruturantes."