Real vira 'dano colateral' e cai quase 3% no pior mês do ano para o câmbio

Real vira 'dano colateral' e cai quase 3% no pior mês do ano para o câmbio

O real brasileiro caminha para registrar seu pior desempenho mensal no ano, à medida que a recuperação do dólar e a mudança nas expectativas para o cenário de juros nos Estados Unidos levam investidores a desmontar uma de suas operações de "carry trade" preferidas.

A moeda brasileira flutua perto da estabilidade no pregão desta terça-feira (30), mantendo a queda acumulada em junho em cerca de 2,7% e reduzindo o desempenho excepcional da moeda no inÃcio do ano. O Ãndice de moedas de mercados emergentes da MSCI recua 1% neste mês.

A estreia de Kevin Warsh na presidência do Federal Reserve, com um tom duro em relação à inflação, no inÃcio deste mês, impulsionou as expectativas de juros mais altos nos EUA e enfraqueceu apostas na moeda brasileira.

Os ativos domésticos também foram pressionados por uma comunicação do próprio BC (Banco Central) tida por alguns agentes do mercado como "confusa", com a autoridade monetária cortando os juros enquanto sinalizou riscos mais elevados para a inflação.

Esse cenário prejudicou o "carry trade", uma operação em que operadores tomam empréstimos em dólar, a taxas baixas, e investem em moedas de maior rendimento, rentabilizando sobre a diferença de juros.

"Foi definitivamente um mês difÃcil para o real, que vinha sendo uma das moedas de mercados emergentes preferidas pelos investidores", disse Luis Estrada, estrategista do RBC Capital Markets. A moeda tornou-se "dano colateral da redução global de posições em portfólios".

O tom mais duro adotado por Warsh à frente do Fed elevou os rendimentos dos treasuries, tÃtulos ligados ao Tesouro dos EUA, e fortaleceu a divisa americana, levando o Ãndice DXY, que compara o dólar a uma cesta de seis moedas fortes, ao maior nÃvel do ano na semana passada.

Ao mesmo tempo, a queda dos preços do petróleo contribuiu para que investidores reduzissem posições compradas que haviam montado no real durante o conflito com o Irã.

O Banco Central reduziu os juros no inÃcio deste mês, em uma decisão amplamente esperada, mas a comunicação que acompanhou a decisão foi considerada ambÃgua por muitos investidores, ao alertar para a aceleração da inflação enquanto mantinha aberta a possibilidade de novos cortes.

"Um Warsh mais duro teve seu papel, mas um BC mais brando também não ajudou o real", disse Czerwonko, CIO para mercados emergentes nas Américas do UBS Global Wealth Management.

Isso foi particularmente relevante "considerando que as expectativas de inflação no Brasil continuam longe de estar ancoradas, além das preocupações fiscais relacionadas à eleição".

Os mercados reagiram negativamente após a decisão, levando economistas a elevar suas projeções para a taxa Selic no fim do ano para 14%, indicando apenas mais um corte de 0,25 ponto percentual.

A liquidação dos ativos também levou o Tesouro Nacional a cancelar um leilão programado de tÃtulos públicos no mercado doméstico, enquanto o Banco Central atuou no mercado à vista de câmbio para injetar liquidez.

Para Benito Berber, economista-chefe para as Américas do Natixis, as perdas do real também refletem o enfraquecimento das expectativas de que um candidato de direita, favorável ao mercado, vencerá a eleição de outubro. Ainda assim, ele afirma que o movimento pode representar uma oportunidade de compra.

"Praticamente tudo o que poderia dar errado para o real, de fato, se materializou nas últimas semanas", disse Berber. "Uma parcela significativa das notÃcias negativas já foi incorporada aos preços."

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