Classificar PCC e CV como terroristas pode aprimorar combate à lavagem de dinheiro, diz executivo

Classificar PCC e CV como terroristas pode aprimorar combate à lavagem de dinheiro, diz executivo

Um dos possÃveis efeitos da decisão dos Estados Unidos de classificar PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como organizações terroristas pode ser levar empresas brasileiras a melhorar a forma como lidam com fluxos de dinheiro, diz Rafael Costa Abreu, diretor de fraude e identidade para América Latina da LexisNexis Risk Solutions, empresa global de dados e prevenção a fraudes.

Em entrevista ao C-Level, o executivo afirma que o uso do sistema financeiro por facções criminosas para lavagem de dinheiro é cada vez mais intenso, em um esforço para inserir recursos provenientes de golpes e outros crimes nos próprios sistemas dessas organizações.

"[A decisão] pode ter um lado positivo no combate ao crime organizado", diz Abreu. "Essas facções estão infiltradas no sistema financeiro, no Brasil todo. Talvez isso possa vir a melhorar como nós temos que lidar com esse fluxo de dinheiro", diz, ao aperfeiçoar mecanismos de identificação, de prevenção e do monitoramento do caminho desse dinheiro.

Nesta quarta-feira (1º), o governo dos Estados Unidos anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas sediadas em São Paulo e uma empresa portuguesa suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC.

De origem americana e integrante um grupo inglês, a LexisNexis tem 25 anos de atuação e está presente no Brasil há dez. Entre os principais clientes da companhia estão fintechs, empresas de viagem, aéreas e seguradoras. Abreu aponta, entretanto, que o segmento financeiro é o que permanece como o mais promissor diante de exigências de segurança cada vez mais rigorosas.

A empresa oferece soluções capazes de distinguir, em poucos segundos, um cliente legÃtimo de um fraudador ou golpista, por meio do que chama de "identidade digital". Nesse processo, até mesmo como uma pessoa digita pode contribuir para identificar um fraudador.

Mas se a responsabilidade nos casos de fraude (quando um terceiro acessa uma conta se passando pelo titular) é do banco de onde sai o dinheiro, nos golpes âsituações em que a própria vÃtima, enganada, realiza a transaçãoâ essa responsabilidade continua em discussão.

Para Abreu, a responsabilidade deveria ser do banco que recebe os recursos.

No Reino Unido, explica o executivo, os bancos emissor e receptor dividem essa responsabilidade. O Brasil, porém, deveria caminhar para um modelo diferente. Nele, 100% da responsabilidade recairia sobre a instituição que recebe os recursos, pois é nela que costuma ser aberta uma conta ilegÃtima, geralmente em nome de um laranja.

"Se existe uma conta laranja, ela foi aprovada por alguém. O que 100% da responsabilidade significa? Eu preciso de melhores controles do banco que recebe o recurso para filtrar as contas laranjas e garantir que não tenha nenhuma delas dentro do seu plantel de clientes", diz.

Em um universo em que uma transação pode durar menos de um segundo, diz Abreu, três minutos é o máximo que se tem para identificar uma fraude e recuperar o dinheiro envolvido, antes que ele desapareça em sucessivas transações. Para isso, podem ser usadas plataformas de jogos e apostas, delivery, corridas.

O paralelo, diz ele, é um balde de água e tinta. "Se eu tenho um vaso de tinta de 10 ml e eu coloco 10 ml de água, para eu tirar essa tinta fica um pouco mais difÃcil. Se eu coloco 100 ml de água, fica mais difÃcil. Em 1 litro de água fica bem mais difÃcil extrair essa tinta. E quando eu coloco em 20, 30 litros, já é quase impossÃvel extrair aquele pigmento."

Abreu reforça a importância de notificar golpes o mais rapidamente possÃvel, aumentando as chances de recuperação dos recursos. Entre os avanços, destaca medidas adicionais de segurança implementadas pelo Banco Central no Pix. Exemplos incluem o botão de contestação e o monitoramento de até cinco contas subsequentes.

"Se tenho a suspeita de que caà em um golpe, vou notificar aquela transação ao meu banco, aquele banco irá notificar para onde o dinheiro foi, para poder haver a recuperação." Como não existe criminoso especializado em "Banco A" ou "Banco B", a cooperação entre as instituições é fundamental, afirma.

Na equação entre perdas e segurança, um estudo da LexisNexis mostra que as defesas antifraude são mais robustas na abertura da conta e vão perdendo força à medida que o cliente avança para o login e, posteriormente, para a transação â etapa em que ocorrem 53% das perdas.

"Quando começamos a digitalização, havia muita fraude de abertura de conta, fraudes de utilização de documentos falsos. Os bancos foram investindo em tecnologias de inteligência artificial, validação facial, biometria, e isso diminuiu as fraudes nesse momento. Então, os fraudadores estão se movendo para as transações."

O estudo também aponta que, a cada três fraudes bloqueadas, uma é concluÃda com sucesso. "à muito difÃcil você ter uma proteção 100%", diz. "E são pessoas que têm uma grande criatividade, têm uma mente criativa, ágil, pensam rápido, são inteligentes e conseguem achar esses buracos no sistema."

Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil. Cada paÃs tem particularidades. Na Ãsia, os golpes costumam envolver promessas de romance, já que as pessoas tendem a se relacionar mais por canais digitais. No Brasil, predominam golpes ligados a questões familiares, pessoais, investimentos, oportunidades de negócio e, principalmente, falsas promessas de emprego.

Se tivesse de escolher uma única métrica para explicar a um executivo de uma empresa média brasileira por que investir em prevenção de risco agora, e não apenas após sofrer uma fraude, Abreu escolheria a fidelização.

"Normalmente, quando o cliente sofre uma fraude, ele tende a mudar de banco, tende a abrir reclamações em sites, falar com amigos, parentes etc. Isso traz uma fricção muito grande. Um ambiente seguro, um ambiente confiável, tende a fidelizar mais."

Para reduzir o risco, afirma, é necessário combinar legislação mais robusta, tecnologia de prevenção e educação da população.

à possÃvel alcançar um cenário de fraude zero? Segundo Abreu, é preciso buscar um equilÃbrio. "Se uma instituição quer fraude zero, basta fechar a porta e ninguém entra. Porém, se ninguém entra, ninguém faz nada. Então, seria preciso manter uma porta entreaberta, até mesmo para não identificar como fraudes operações legÃtimas", diz.

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