
A Polymarket, plataforma do chamado mercado de previsão, financiou uma campanha de vÃdeos de apostas e vitórias falsas para divulgar a empresa nas redes sociais, segundo uma reportagem investigativa do jornal Wall Street Journal publicada neste mês.
O WSJ analisou 1.105 vÃdeos postados por dez criadores endossados pela empresa entre dezembro de 2025 e meados de maio. Em 70% das gravações, as pessoas faziam uma aposta, mas pistas nos vÃdeos evidenciaram que nenhuma das apostas, que somavam US$ 1,9 milhão (R$ 9,9 milhões), era real.
Dos mais de mil vÃdeos analisados, 118 mostravam os criadores reagindo a fatos desatualizados ou falsos para sugerir que haviam ganhado dinheiro com as apostas. Esses 118 vÃdeos mostravam os criadores ganhando quase US$ 900 mil (R$ 4,7 milhões), mas, se fossem reais, as apostas teriam gerado perdas de mais de US$ 166 mil (R$ 866 mil), afirma a reportagem.
Houve uma grande operação por parte da Polymarket para concretizar a campanha de marketing enganosa, mostra a investigação do WSJ. A reportagem afirma que a empresa desenvolveu cópias quase perfeitas de seu site para que os criadores gravassem os vÃdeos.
O jornal identificou uma série de discrepâncias entre o site real e as versões falsas, como erros de digitação na URL ou em botões da plataforma. Após o WSJ procurar a empresa para comentar o assunto, um dos sites falsos ao qual a reportagem teve acesso foi retirado do ar.
Os criadores também receberam orientações de como filmar os vÃdeos simulando as apostas e foram instruÃdos a esconder que estavam sendo pagos para fazer os vÃdeos. O pagamento variava entre US$ 2.000 e US$ 3.000 (R$ 10 mil a R$ 15 mil) por mês, apurou o jornal com pessoas que mantinham contratos com a Polymarket.
Os criadores enviavam os vÃdeos finalizados para a empresa de mercados preditivos revisar. Se um vÃdeo não fosse suficientemente atraente ou tivesse sinais óbvios de ser falso, a empresa pedia novas versões.
Eles também foram orientados a se distanciar da plataforma, evitando citar a empresa no nome de usuário, por exemplo. Também depois de o jornal procurar a empresa, os criadores começaram a adicionar "@polymarket partner" aos seus perfis.
A empresa também contratou uma agência para garantir que os vÃdeos viralizassem. A empresa adotou como estratégia a redistribuição dos vÃdeos âgeralmente feita por adolescentes da Ãsiaâ por meio de contas falsas nas redes sociais.
A reportagem cita exemplos da campanha enganosa, como o universitário George Makihara. Em janeiro, ele postou um vÃdeo que mostrava ele ganhando US$ 100 mil em uma aposta de que o presidente Donald Trump diria publicamente a palavra "McDonald's" naquele mês.
Isso não aconteceu, segundo apurou o jornal, que afirma que mais de 50 contas que fizeram essa mesma aposta no site real da Polymarket perderam dinheiro. Procurado pelo WSJ, Makihara não comentou o assunto.
Em resposta ao jornal, a Polymarket disse que planeja realizar uma auditoria abrangente do conteúdo promocional ativo. Também disse que está "comprometida em manter mercados precisos, justos e transparentes. Fazemos parte de uma indústria em rápido crescimento e estamos constantemente avaliando formas de melhorar como nos relacionamos e conquistamos a confiança do nosso público".
Um porta-voz da Federal Trade Commission, que aplica as leis de publicidade nos EUA, se recusou a comentar as descobertas do WSJ, citando a polÃtica da agência de não comentar sobre potenciais investigações.
Após a reportagem, dois senadores pediram uma investigação federal sobre a promoção de apostas falsas nas redes sociais pela Polymarket à CFTC (Commodity Futures Trading Commission).
Uma pessoa com conhecimento do assunto disse ao jornal que a CFTC já está investigando a empresa, mas o motivo da investigação não foi descoberto. O órgão se recusou a confirmar a existência da investigação.
Separadamente, um grupo de defesa do consumidor processou nesta sexta-feira (26) a Polymarket, o CEO Shayne Coplan e o diretor de marketing Matthew Modabber, alegando que a empresa mirou estudantes universitários com publicidade enganosa, persuadindo-os a fazer negociações enquanto ocultava a probabilidade de que perderiam dinheiro.
INCENTIVO A USO DE INFORMAÃÃO PRIVILEGIADA
Além dos vÃdeos de apostas falsas, o WSJ também revelou que a Polymarket e a Virality, agência que realizou as campanhas de marketing, patrocinaram vÃdeos que falavam sobre a facilidade de conduzir negociações com informações privilegiadas.
O influenciador famoso na "machosfera", Adin Ross, que mantém um contrato multimilionário com a Polymarket, falou sobre como usar informações privilegiadas em pelo menos cinco vÃdeos. Em um dos vÃdeos patrocinados pela empresa, ele fala que poderia usar informações privilegiadas para apostar a data do lançamento de um novo álbum do cantor Drake, conhecido de Ross.
Representantes de Ross e Drake se recusaram a comentar. A Polymarket disse que "proÃbe negociações baseadas em informações roubadas, dicas ilegais ou informações obtidas em violação de um dever de confiança, confidencialidade ou outra obrigação legal".