Diretora da Fiesp usa cabeleireiro para contestar fim da escala 6x1

Diretora da Fiesp usa cabeleireiro para contestar fim da escala 6x1

Em um debate no Senado sobre o fim da escala 6x1, a diretora executiva jurÃdica da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), Luciana Nunes Freire, argumentou que os salões de cabeleireiro vão fechar aos sábados para atender mulheres que trabalham em escala 5x2. E questionou com certo tom de revolta:

"Ã certo isso?"

Por trás desse questionamento existe uma visão de paÃs muito antiga: a ideia de que o tempo de alguns vale mais do que o tempo de outros. Além disso, nesse caso, existe uma interessante ironia, pois a Fiesp, que anos atrás popularizou o famoso pato amarelo para dizer que o setor produtivo não aceitaria arcar com certos custos do Estado, agora parece incomodada com a possibilidade de uma parte dos trabalhadores deixar de pagar o pato da nossa organização social.

Então, eu te pergunto:

Quem deve abrir mão de um dia a mais de descanso para que outra pessoa consiga fazer as unhas?

Para responder a essa pergunta, é importante você ter em mente que, no Brasil, o tempo sempre foi distribuÃdo de forma desigual. Não deveria ser difÃcil concluir que quem tem renda compra tempo: pede comida, contrata faxina, chama motorista, paga alguém para cuidar da casa, das unhas, dos filhos e dos pais. Agora, se você faz parte daquele grupo que tem menos renda, para sobreviver, você vende seu tempo e perde as oportunidades de uma convivência mais humana.

A escala 6x1 ajuda a organizar a desigualdade de uma outra maneira. Para muita gente, o fim de semana é apenas a continuação da semana com outro nome. Um dia de folga, quando existe, muitas vezes vira dia de lavar roupa, resolver pendências, cuidar da casa, dormir um pouco mais e visitar a famÃlia correndo. A vida fica espremida entre o cansaço e a próxima escala.

Por isso, a fala da diretora da Fiesp pegou tão mal. A manicure também tem mãe. Também tem filhos. Também tem vontade de almoçar sem pressa, caminhar no bairro, ir ao cinema, ficar em casa e não fazer nada.

Se você olhar com cuidado, perceberá que existe uma cegueira social que faz com que parte da sociedade brasileira fale de serviço como se ele surgisse do nada. O supermercado aberto, a farmácia funcionando, o salão cheio, o restaurante servindo e o aplicativo chegando. Tudo isso parece parte natural do funcionamento de uma cidade. Só que cada conveniência carrega uma jornada e cada atendimento tem alguém do outro lado do balcão.

No fundo, a discussão sobre a escala 6x1 é também uma discussão sobre o tipo de humanidade que estamos dispostos a construir. Uma sociedade que exige disponibilidade permanente dos trabalhadores mais vulneráveis está revelando suas próprias prioridades e, simultaneamente, evidenciando suas contradições. Está dizendo que algumas vidas podem ser organizadas em torno da conveniência alheia. Está dizendo que o descanso de uns é direito, enquanto o descanso de outros é um problema.

E, dito isso, concordo que determinados setores econômicos têm muito mais dificuldades de adaptação e que tal reforma gerará custos diretos e indiretos relevantes que precisam ser considerados. Só que uma economia forte não deveria depender da exaustão permanente de quem ganha menos. Nosso desafio é procurar construir uma agenda de produtividade com dignidade, e não conveniência com sacrifÃcio alheio.

Porque, no final do dia, ninguém quer pagar o pato.

O texto é uma homenagem à música "Gentileza", composta por Arnaldo Antunes e Marisa Monte, interpretada por Marisa Monte.

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