Investidores escolhem pela embalagem

Investidores escolhem pela embalagem

Existe um erro de julgamento muito comum entre investidores. Quando decidem buscar ajuda profissional, passam semanas discutindo qual modelo de atendimento escolher. Assessor, consultor ou gestor. Mas dedicam poucos minutos à pergunta que realmente importa: quem será e qual a qualificação da pessoa responsável por ajudá-los a tomar decisões sobre o patrimônio da famÃlia pelos próximos anos?

à um comportamento curioso, e não acontece apenas no mercado financeiro.

Imagine alguém decidido a entrar em forma. A primeira pergunta costuma ser: qual é a melhor academia? Mas será que essa é realmente a questão mais importante?

Academias oferecem estruturas diferentes, equipamentos diferentes e serviços diferentes. Ainda assim, dificilmente alguém transforma a própria condição fÃsica apenas porque trocou de academia. O que normalmente faz diferença é a disciplina para treinar e, quando existe acompanhamento, a qualidade do treinador.

Nos investimentos acontece exatamente a mesma coisa.

à claro que existem diferenças entre os modelos de atendimento. O assessor pode ser comparado ao personal trainer que atua dentro de uma academia. O consultor seria o profissional que acompanha o aluno independentemente de onde ele decida treinar. Já o gestor se assemelha ao treinador que recebe autonomia para montar todo o programa de treinamento e tomar as decisões técnicas em nome do atleta.

Cada um desses modelos atende necessidades diferentes. Nenhum é, por definição, melhor do que o outro.

O curioso é que o mercado financeiro costuma transformar essas modalidades em tendências. Em determinada época, o profissional mais valorizado é o assessor. Depois, a preferência passa para o consultor. Amanhã poderá surgir um novo modelo. Em muitos casos, entretanto, trata-se exatamente do mesmo profissional. A formação é a mesma. A experiência é a mesma. Os valores são os mesmos. O que muda é o modelo de atuação â e, eventualmente, a forma de remuneração, que no caso do profissional da moda é mais elevada.

à como se um excelente personal trainer deixasse uma academia para atuar de forma independente. Ele continua sendo o mesmo profissional. Não ficou melhor nem pior apenas porque mudou o lugar onde trabalha. Da mesma forma, um profissional pouco qualificado não se torna excelente apenas porque adotou um novo modelo de atendimento.

à justamente aà que muitos investidores cometem um erro. Escolhem primeiro a embalagem e só depois olham o conteúdo.

Passam horas comparando plataformas, discutindo cargos, tentando descobrir qual modalidade está "na moda". Mas esquecem de investigar aquilo que realmente determina a qualidade do serviço: a competência, a experiência, a ética, a disponibilidade do profissional que estará ao lado.

Se colocarmos um excelente assessor ao lado de um consultor mediano, a escolha provavelmente será o assessor. Se compararmos um gestor desqualificado com um profissional preparado de qualquer das outras categorias, dificilmente alguém deveria escolher o gestor apenas por causa do cargo. No fim, o tÃtulo explica muito menos do que as pessoas imaginam.

Isso não significa que as modalidades sejam iguais. Elas existem justamente porque diferentes investidores possuem necessidades diferentes. Quem concentra investimentos em uma única instituição pode estar perfeitamente atendido por um assessor. Quem possui patrimônio distribuÃdo entre várias instituições talvez valorize a independência de um consultor e esteja disposto a pagar por isso. Quem prefere delegar integralmente as decisões pode encontrar no gestor a solução mais adequada.

Mas perceba como, em todos esses exemplos, a escolha do modelo vem depois. Antes dela existe uma decisão muito mais importante: escolher a pessoa.

O mercado financeiro costuma gastar tempo demais discutindo o rótulo do profissional. Assessor, consultor ou gestor. No fim, essa é apenas a embalagem. O investidor deveria dedicar muito mais tempo para descobrir quem estará ao seu lado nas próximas décadas, ajudando a tomar decisões que afetarão seu patrimônio e sua famÃlia. Porque patrimônio não se constrói escolhendo a academia mais famosa. Constrói-se escolhendo o treinador certo para percorrer a jornada.

Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.

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