Donos da maior produtora de ovos dos EUA lucraram US$ 320 mi com venda após alta de preços

Donos da maior produtora de ovos dos EUA lucraram US$ 320 mi com venda após alta de preços

A famÃlia por trás da Cal-Maine, maior produtora de ovos dos Estados Unidos, lucrou US$ 320 milhões (R$ 1,6 bi) com a venda de sua participação no controle da empresa. A operação ocorreu semanas após uma disparada dos preços de ovos que, segundo promotores americanos, resultou de anos de manipulação de mercado.

A venda pela famÃlia Adams, que era proprietária e operava a Cal-Maine havia quase sete décadas, ocorreu após uma temporada de disparada nos preços dos ovos, nos lucros da Cal-Maine e nas ações da empresa.

Promotores americanos afirmam que, nesse perÃodo, a Cal-Maine e duas concorrentes coordenaram de forma privada ofertas e negociações para influenciar o Ãndice de referência usado em contratos em todo o mercado de ovos dos EUA.

Entre junho de 2022 e março de 2025, as ações da Cal-Maine praticamente dobraram, subindo de cerca de US$ 45 (R$ 231,79) por ação para US$ 95 (R$ 489,34) por ação, permitindo que a famÃlia vendesse sua fatia perto de uma máxima histórica de preços.

Os preços dos ovos grandes tipo A quadruplicaram para mais de US$ 8,50 (R$ 43,78 na cotação atual) a dúzia em fevereiro de 2025, segundo o serviço de informações de preços de commodities Expana, antes de recuarem para cerca de US$ 2,19 (R$ 11,28) em maio deste ano.

A disparada nos preços dos ovos foi uma das principais reclamações dos americanos sobre a crise de custo de vida nos EUA. O problema se transformou em questão polÃtica e acabou levando a uma investigação do governo americano sobre a causa do aumento de preços. Embora um surto de gripe aviária tenha causado choque de oferta, autoridades dos EUA disseram que executivos do setor usaram a crise para manipular o mercado.

Uma ação judicial apresentada no mês passado pelo Departamento de Justiça dos EUA e 17 procuradores-gerais estaduais alegou que executivos das empresas Cal-Maine, Hickman's Egg Ranch e Versova trabalharam para inflar as cotações de preços para o serviço de referência Urner Barry, usado para precificar bilhões de ovos vendidos anualmente a supermercados, restaurantes e empresas de serviços alimentÃcios.

A ação afirma que, em 4 de dezembro de 2024, após ligações com executivos da Cal-Maine e da Versova, "o ex-CEO da Cal-Maine" enviou uma mensagem de texto ao presidente-executivo da Hickman's dizendo: "Manda ver".

Depois disso, as empresas publicaram mais ofertas de compra de ovos, uma parcela maior delas a preços premium e não atendidas, buscando sinalizar forte demanda à Urner Barry e elevar suas cotações, disseram os promotores.

A ação não nomeia o ex-presidente-executivo. Documentos da Cal-Maine mostram que Adolphus "Dolph" Baker, genro do fundador Fred R. Adams Jr., deixou o cargo de presidente-executivo em setembro de 2022, mas permaneceu como presidente do conselho e diretor-executivo. Baker foi um dos acionistas que vendeu as participações da famÃlia no grupo.

A Cal-Maine negou irregularidades no caso do Ãndice de referência e disse que sua conduta foi legal. O acordo proposto pela Justiça americana não inclui qualquer admissão de responsabilidade e ainda requer aprovação judicial.

A Cal-Maine não respondeu aos pedidos de comentário. Os membros das famÃlias Baker e Adams não responderam ao contato feito por meio da empresa.

A famÃlia Adams controlava a Cal-Maine por meio de ações classe A com supervoto detidas por um veÃculo chamado Daughters LLC. Em fevereiro de 2025, a empresa anunciou um acordo com as quatro filhas do fundador e Baker para converter essas ações em ações ordinárias comuns, reduzindo o poder de voto da famÃlia e encerrando seu controle majoritário.

A empresa disse na época que a conversão permitiria aos membros da famÃlia considerar uma "potencial diversificação de seus portfólios financeiros individuais". Baker disse que a decisão de considerar a diversificação foi "pessoal" e tomada em conexão com os "esforços de planejamento financeiro e patrimonial" da famÃlia.

A venda da participação da famÃlia Adams foi liderada pelo Goldman Sachs em abril de 2025. A conversão ocorreu em 14 de abril de 2025. No dia seguinte, a Cal-Maine firmou um contrato de subscrição com o Goldman Sachs para vender quase 3 milhões de ações detidas pela famÃlia a US$ 92,75 (R$ 477,75) por ação. A empresa não vendeu nenhuma ação e não recebeu recursos da oferta.

O Goldman Sachs recusou-se a comentar.

Paralelamente à venda secundária, a Cal-Maine concordou em recomprar 551.876 ações dos membros da famÃlia vendedores por cerca de US$ 50 milhões (R$ 257,55 mi), usando um novo programa de recompra de ações de US$ 500 milhões (R$ 2,5 bi) anunciado semanas antes. A oferta e a recompra foram concluÃdas em 17 de abril.

A venda foi uma realização parcial de caixa, e não uma saÃda completa. Os membros da famÃlia mantiveram ações após a transação, e Baker permaneceu como presidente do conselho da Cal-Maine.

A Cal-Maine divulgou pela primeira vez em um relatório trimestral, em 8 de abril de 2025, que havia recebido uma intimação do Departamento de Justiça em março, relacionada a uma investigação antitruste "amplamente divulgada" sobre aumentos nos preços dos ovos em todo o paÃs. O acordo familiar havia sido anunciado antes de a intimação investigativa ser recebida ou divulgada, mas a conversão de ações, a venda secundária e a recompra pela empresa ocorreram depois.

A transação também ocorreu após um perÃodo de lucros extraordinários na Cal-Maine. As vendas lÃquidas da empresa subiram para US$ 4,3 bilhões (R$ 22,1 bi) no ano fiscal de 2025, ante US$ 2,3 bilhões (R$ 11,8 bi) no ano anterior, enquanto o lucro lÃquido subiu para US$ 1,2 bilhão (R$ 6,2 bi), ante US$ 277,9 milhões (R$ 1,4 bi). O lucro bruto atingiu US$ 1,85 bilhão (R$ 9,5 bi), acima dos US$ 541,6 milhões (R$ 2,8 bi) no ano fiscal de 2024, impulsionado principalmente por preços médios de venda mais altos, particularmente para ovos convencionais, e volumes maiores.

A Cal-Maine pagou US$ 252 milhões (R$ 1,3 bi) em dividendos no ano fiscal de 2023, um aumento acentuado em relação ao ano anterior, à medida que o choque causado pela gripe aviária elevou os preços dos ovos. Seus documentos também mostram que a empresa pagou US$ 330 milhões (R$ 1,7 bi) em dividendos no ano fiscal de 2025.

A empresa disse que os altos preços dos ovos refletiram a gripe aviária, a oferta restrita e a forte demanda. Em janeiro de 2025, ao reportar lucro lÃquido trimestral de US$ 219 milhões (R$ 1,1 bi), o presidente-executivo Sherman Miller disse que a Cal-Maine e o setor em geral enfrentaram "desafios significativos" com a gripe aviária e a empresa permanecia focada em "apoiar o abastecimento alimentar do paÃs".

Os promotores dos EUA não contestam que a gripe aviária causou um choque de oferta genuÃno. Dezenas de milhões de aves foram abatidas durante o surto, e a doença devastou alguns produtores. Mas o Departamento de Justiça e os estados alegaram que executivos da Cal-Maine e de concorrentes também usaram ofertas de compra de ovos e negociações privadas com preços premium para influenciar o Ãndice de referência que converteu a escassez em preços.

Sob o acordo proposto anunciado na semana passada, Cal-Maine, Versova e Hickman's concordaram em doar 53 milhões de ovos a bancos de alimentos e organizações sem fins lucrativos e fazer pagamentos de US$ 3,3 milhões (R$ 17 mi) aos estados participantes. As empresas também devem parar de se comunicar com concorrentes sobre ofertas, preços ou transações destinadas a afetar publicações de Ãndices de referência.

A Cal-Maine negou irregularidades no caso do Ãndice de referência, dizendo que sua conduta foi legal e os preços dos ovos foram afetados pela gripe aviária, pela pandemia de Covid-19, pelo clima, pela inflação e por outras dinâmicas de mercado.

A Versova também negou irregularidades. A Hickman's foi adquirida no ano passado pela Mantiqueira USA, uma joint venture apoiada pelas brasileiras JBS e Mantiqueira. A empresa disse que a conduta alegada é anterior à aquisição.

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