
A janela de IPOs (oferta pública inicial de ações) fechou na Bolsa brasileira em 2026. Mas o setor de infraestrutura, cotado como um dos mais proeminentes para futuras aberturas de capital no paÃs, tem agitado o mercado de ações por outras vias.
Engie Brasil e ISA Energia anunciaram na última semana ofertas subsequentes de ações, ou "follow-ons", no jargão em inglês. Essa operação acontece quando uma empresa já listada na Bolsa de Valores emite novos papéis para captar recursos. à diferente do IPO, que ocorre quando uma companhia fechada abre capital e começa a ser negociada no mercado pela primeira vez.
A Engie, subsidiária homônima do grupo francês de energia, anunciou na segunda-feira (6) que irá colocar mais de 178 milhões de novos papéis ordinários para negociação. Se houver demanda, poderá ainda disponibilizar um lote adicional de mais 147 milhões de ações.
Levando em conta o preço de fechamento do papel na sexta-feira (3), de R$ 32,14, a oferta inicial poderá captar até R$ 5,74 bilhões. Com o lote adicional, o montante pode chegar a até R$ 10,5 bilhões.
A ISA Energia, na sexta, também comunicou que planeja emitir cerca de 20 milhões de novos papéis preferenciais. A previsão da empresa é que o valor da oferta seja de R$ 650 milhões, mas a operação ainda precisa ser aprovada em assembleia.
Se ambas as ofertas vingarem, incluindo o lote adicional da Engie, o setor de infraestrutura movimentará mais de R$ 11 bilhões na Bolsa âe logo na esteira do follow-on da Copasa, que levantou R$ 8,38 bilhões em junho.
O segundo semestre ainda pode ter ofertas subsequentes da Energisa, da Eneva e da Equatorial, conforme a Folha apurou com bancos de investimento.
Sem ações listadas em bolsa, a empresa de saneamento básico Aegea também anunciou que pretende atrair R$ 2,1 bilhões de investidores para fortalecer sua estrutura de capital. A Itaúsa, que já é investidora da empresa, afirmou que pode aportar até R$ 1,5 bilhão na companhia.
A forte demanda por infraestrutura, afirma Ricardo Simon, diretor do family office Eclipseon, se justifica por se tratar de um setor que navega bem em momentos de instabilidade econômica.
"Energia elétrica e saneamento são dois setores que sempre se mostraram resilientes em momentos de instabilidade, de crise ou de aversão a risco. Costumam negociar a múltiplos baixos e, ao mesmo tempo, oferecer dividendos altos, com empresas de resultado mais constante", disse.
A leitura considera dois fatores sobre o atual ciclo econômico: a taxa Selic elevada e a volatilidade esperada no segundo semestre, com as eleições presidenciais.
Para a frustração do mercado, que anseia pela queda da taxa Selic desde o fim da pandemia, as previsões do começo do ano não se concretizaram. Se, em meados de fevereiro, alguns gestores especulavam que o juro básico chegaria a "no mÃnimo" 11% ao fim de 2026, a guerra no Irã e o subsequente choque no mercado energético rapidamente rebalancearam as projeções.
Com o petróleo mais alto, as pressões sobre a inflação aumentam e passam a demandar uma polÃtica monetária mais restritiva em todo o mundo. No Brasil, o último Boletim Focus mostra que o mercado estima a Selic terminal de 2026 em 14% âapenas 0,25 ponto percentual abaixo do atual patamar, de 14,25% ao ano.
O juro mais alto encarece operações de empresas de todos os segmentos. No mercado financeiro, ainda reduz a atratividade da renda variável: com os tÃtulos de renda fixa atrelados à Selic rendendo quase 1% ao mês, há pouco estÃmulo para buscar risco.
Infraestrutura, porém, descola dessa tendência ânão por estar isenta dos efeitos da Selic, mas por ter um horizonte de longo prazo como principal caracterÃstica. O setor reúne hoje empresas de grande porte, com contratos de longa duração e, em muitos casos, receitas corrigidas pela inflação.
Isso significa fluxo de caixa mais previsÃvel e uma certa blindagem à s oscilações econômicas. Essa combinação reduz a percepção de risco, o que vai bem em um cenário em que o investidor está seletivo com as alocações e prioriza retornos previsÃveis.
"O setor tem menor dependência do ciclo econômico e maior conexão com o investimento de longo prazo, e é justamente isso que consegue convencer os investidores a alocar capital neste momento. Outros setores, mais dependentes do ciclo econômico, teriam mais dificuldade de atrair capital. Nesses setores resilientes, o investidor olha para um horizonte mais longo", diz Simon.
A dita "blindagem" está em sincronia com as eleições presidenciais no segundo semestre. O mercado prevê volatilidade nas negociações, como de praxe, e bancos mapeiam janelas de oportunidade pontuais para realizar grandes operações, como follow-ons e vendas de blocos de ações ("block trades"), aproveitando momentos de valorização dos papéis na Bolsa.
"As eleições estão começando a entrar no preço, e, com a volatilidade, o mercado está dando espaço só para ofertas mais garantidas, como Engie e ISA", diz o chefe do banco de investimento do Bradesco BBI, André Moor.
"Se outras empresas de infraestrutura quiserem fazer follow-on, existe demanda para isso."
Por parte das companhias, o interesse em ofertar uma nova leva de ações normalmente se baseia em captação de recursos âem um ambiente de juro alto, afirma Moor, é comum que as empresas busquem novas formas de financiar as operações.
Entre as que já anunciaram ofertas, as intenções variam para cada empresa.
A Engie, por sua vez, afirmou que usará R$ 5,74 bilhões do total captado para financiar a aquisição dos 40% de sua controladora na hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Os recursos restantes serão usados para fortalecer e otimizar sua estrutura de capital. A empresa também anunciou uma oferta de debêntures no total de R$ 700 milhões.
Já a ISA publicou a intenção de oferta no contexto de expansão de suas operações. A companhia anunciou recentemente o aporte de R$ 1,1 bilhão no maior projeto de linha de transmissão subterrânea do paÃs, que liga o bairro do Cambuci, na região central de São Paulo, ao municÃpio de São Caetano do Sul, no Grande ABC. Outros investimentos bilionários, nos estados da Bahia, Minas Gerais e EspÃrito Santo, também foram anunciados neste ano.
Por ora, diz Moor, o segundo semestre do ano deve ser marcado por operações pontuais de follow-on, como essas. A expectativa é que a janela de IPOs volte a abrir no ano que vem âe, para isso, já existem de cinco a 10 empresas de infraestrutura aptas a abrir capital.