Trauma da crise de 1997 impede Coreia do Sul de virar mercado desenvolvido

Com a Coreia do Sul a caminho de ter o Ãndice de ações com melhor desempenho do mundo pelo segundo ano consecutivo, sua ambição de ser reconhecida como mercado desenvolvido está sendo prejudicada pelas cicatrizes de uma crise de três décadas atrás.

Uma alta vertiginosa impulsionada pelas fornecedoras de chips de IA Samsung Electronics e SK Hynix ajudou o Kospi a triplicar de valor desde o inÃcio de 2025. Junto com uma série de reformas no mercado de capitais, Seul esperava que isso ajudasse a convencer a MSCI a reconsiderar o status de mercado desenvolvido para a Coreia do Sul âuma meta que o paÃs persegue há mais de uma década.

Mas no mês passado, a provedora de Ãndices manteve a classificação do paÃs como mercado emergente, citando barreiras para investidores estrangeiros, particularmente a ausência de um mercado offshore (com negociações feitas fora do paÃs) totalmente conversÃvel para o won.

"O governo ainda é assombrado pelo 'trauma do FMI' e tem medo de que a influência estrangeira sobre o mercado de câmbio aumente quando permitirem a negociação offshore do won coreano", disse Hwang Seiwoon, pesquisador do Korea Capital Market Institute.

Durante a crise financeira asiática de 1997, o won perdeu cerca de metade de seu valor em dois meses, enquanto as reservas internacionais do paÃs caÃram para um nÃvel equivalente a apenas quatro ou cinco dias de importações.

A turbulência levou a Coreia do Sul à beira da inadimplência, elevando a dÃvida de curto prazo e desencadeando uma onda de falências corporativas. Seul foi forçada a buscar um resgate do FMI.

A crise deixou cicatrizes geracionais na economia sul-coreana e levou o governo a manter um controle rÃgido sobre o mercado de câmbio. Ele limitou o horário de negociação, manteve a liquidação onshore (operações feitas dentro do paÃs) e reconstruiu as reservas internacionais até figurar entre as maiores do mundo.

O presidente da Coreia do Sul, Lee Jae-Myung, fez da obtenção de uma elevação pela MSCI um objetivo central. Sua administração fortaleceu os direitos dos acionistas minoritários e facilitou o acesso para investidores estrangeiros.

Mas as autoridades continuam relutantes em abrir totalmente o mercado de câmbio, especialmente com o won sendo negociado próximo aos nÃveis vistos durante a crise financeira global de 2008.

Em vez disso, lançaram reformas graduais, como permitir contas omnibus para investidores estrangeiros. Essas contas permitem que corretoras agrupem investimentos de múltiplos clientes para facilitar e baratear a compra de ações sul-coreanas. Esta semana, o paÃs introduziu a negociação do won 24 horas, mas apenas com liquidação onshore.

A MSCI reconheceu o progresso da Coreia do Sul na abertura de seu mercado, mas disse que as medidas foram insuficientes, observando a falta de negociação offshore do won e fragilidades na liquidação de vendas a descoberto.

"Os investidores institucionais internacionais precisarão ser convencidos" de que a negociação onshore do won 24 horas pode fornecer liquidez e spreads de compra e venda comparáveis aos de outras moedas de mercados desenvolvidos, disse a MSCI.

"Não será fácil para o governo liberalizar totalmente o mercado de câmbio, dado o medo de que o capital deixe o paÃs", disse Jongmin Shim, analista de ações da CLSA. "O governo continua preocupado de que não conseguirá controlar o valor do won" se o mercado for totalmente aberto.

Os formuladores de polÃticas acreditam que uma elevação pela MSCI atrairia capital de longo prazo mais estável e reduziria a volatilidade do mercado. A BNP Paribas Securities estima que fundos passivos que acompanham Ãndices da MSCI poderiam trazer cerca de US$ 30 bilhões em entradas de capital.

Outros disseram que os benefÃcios seriam menos diretos. A Coreia do Sul representa 24% do Ãndice de mercados emergentes da MSCI, mas representaria apenas 3% do Ãndice de referência de mercados desenvolvidos, segundo a NH Investment & Securities.

"SaÃdas significativas de capital são prováveis de ações de pequena e média capitalização que não se qualificarem para o Ãndice de mercado desenvolvido, aumentando a concentração em ações de grande capitalização", escreveu o analista Kim Kyu-jin em um relatório recente.

Shim, da CLSA, observou que uma elevação seria amplamente simbólica porque a Coreia do Sul já é amplamente vista como uma economia desenvolvida. "à como atingir mais um marco, mas o mercado está indo bem mesmo no grupo de mercados emergentes", disse.

A Coreia do Sul é a 10ª maior economia do mundo e já é classificada como mercado desenvolvido pela FTSE Russell e S&P Dow Jones. A MSCI colocou o paÃs em sua lista de observação para status de mercado desenvolvido em 2008, mas o removeu em 2014 devido ao progresso limitado na liberalização cambial e outras preocupações regulatórias.

O mercado de ações do paÃs se expandiu rapidamente junto com suas campeãs de semicondutores. Samsung Electronics e SK Hynix, que se tornaram centrais para o boom global de IA, ajudaram a elevar o valor do mercado de ações sul-coreano para US$ 4,4 trilhões, tornando-o o oitavo maior do mundo, à frente da Alemanha e da França.

"Mas não é uma questão de desempenho do mercado, mas de seu acesso e investibilidade", disse Namuh Rhee, presidente do Korean Corporate Governance Forum.

Rhee permaneceu cético de que uma elevação viria em breve, citando incerteza regulatória e repetidas reversões de polÃticas. Uma proibição de vendas a descoberto introduzida em 2023 só foi suspensa no ano passado.

"Os investidores ainda estão cautelosos porque viram muitos casos de reviravoltas e recuos nas polÃticas do governo coreano", disse.

Após a última decisão da MSCI, o governo prometeu continuar as reformas cambiais e do mercado de capitais, mas não ofereceu cronograma para permitir a negociação offshore do won.

Os formuladores de polÃticas esperam que o status de mercado desenvolvido ajude a eliminar o "desconto coreano", referindo-se à subvalorização crônica das empresas sul-coreanas.

Mas analistas disseram que reformas estruturais mais amplas seriam necessárias, já que a maioria das empresas fora das grandes fabricantes de chips permanece subvalorizada apesar da alta de dois anos do Kospi.

"A inclusão no grupo de mercados desenvolvidos não resolve automaticamente o desconto coreano", disse Shim. "O governo deveria promover reformas mais ousadas, como cortar impostos sobre dividendos e heranças, para que os grandes conglomerados possam adotar polÃticas mais favoráveis aos acionistas."

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