
Pela primeira vez desde que recorreu à Justiça e pediu recuperação judicial, a Ambipar veio a público destrinchar sua situação financeira. Em uma apresentação com números não auditados, a companhia de gestão ambiental disse que encerrou 2025 com R$ 2,57 bilhões, sendo que a maior fatia é composta por pré-precatórios federais.
Pré-precatórios antecedem a expedição oficial de um precatório (dÃvida de um ente público, de municÃpios a União). à uma dÃvida reconhecida pela Justiça, mas cujo valor exato ainda não foi calculado, considerando juros e correção, já que a ordem de pagamento não foi dada.
Em geral, as empresas deixam a maior parte de seu caixa investido em ativos seguros e de fácil liquidez, como dinheiro numa conta bancária, tÃtulos públicos e CDBs (Certificados de Depósito Bancário) de emissores de alta qualidade. Nesses tipos de ativos, chamado de caixa e equivalentes de caixa, a Ambipar tinha apenas R$ 295 milhões.
A companhia apresentou as informações para fechar um acordo de apoio à reestruturação do endividamento com credores, anunciado na noite desta quarta-feira (8).
A Ambipar disse ter R$ 1,2 bilhão nos créditos judiciais, que compõem o caixa de R$ 2,57 bilhões da companhia, segundo informações relativas a dezembro de 2025 publicadas pela empresa na última quinta-feira (9).
Segundo o documento, o endividamento consolidado do grupo totaliza R$ 13,3 bilhões.
Porém, no balanço do segundo trimestre de 2025, quando as dificuldades financeiras da companhia ainda não tinham vindo à tona, a Ambipar reportou que possuÃa R$ 4,7 bilhões em caixa.
A falta de transparência sobre a situação financeira da empresa foi alvo de questionamentos de investidores, credores e da CVM (Comissão de Valores Mobiliários).
Segundo a empresa, sua segunda maior linha de caixa é a participação de 23% que a empresa tinha na Emae (Empresa Metropolitana de Ãguas e Energia), com base no valor das ações na Bolsa de Valores.
Segundo a Ambipar, isso equivalia a R$ 533 milhões ao fim do ano passado. Porém, neste ano, a companhia vendeu essa participação para a Sabesp por R$ 171,6 milhões.
Há também uma fatia relevante do caixa, de R$ 247 milhões, em investimentos em um banco que posteriormente entrou em processo de liquidação pelo Banco Central. Trata-se do Banco Pleno (ex-Voiter), que fez parte do Banco Master até 2025.
Antes da crise, a Ambipar também contava ter R$ 809,6 milhões em caixa sob a forma de cotas de Fidc (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios). Em dezembro, porém, a companhia reduziu esse montante para R$ 84 milhões.
A baixa, segundo o documento, corresponde ao Fidc Fênix, cuja maior parte de direitos creditórios vinham de uma empresa chamada Everest, que, segundo dados da Jucesp (Junta Comercial do Estado de São Paulo), tem Tercio Borlenghi Junior, fundador da Ambipar, e como sócio.
AMBIPAR: DE 800% DE VALORIZAÃÃO ACIONÃRIA Ã RJ
Criada em 1995, a Ambipar ganhou projeção partir de 2020, promovendo uma acelerada expansão com mais de 70 fusões e aquisições, especialmente de pequenas e médias empresas.
Em seu site, ela é definida como multinacional brasileira, lÃder global em soluções ambientais, presente em 40 paÃses, com mais de 20 mil funcionários e faturamento (receita lÃquida consolidada) de R$ 6,4 bilhões em 2024.
Opera com projetos de descarbonização, economia circular, transição energética e regeneração ambiental âa linha de frente dos negócios do século 21.
A empresa chegou a inaugurar escritórios em Dubai e Abu Dhabi e a fazer parceria com a chinesa BYD. O fundador e controlador Tércio Borlenghi Junior, integrou a comitiva do Lide, de João Doria, e até almoçou com o presidente da França, Emmanuel Macron.
Em dezembro de 2024, as ações da companhia chegaram ao topo de R$ 26,85 na B3, a Bolsa brasileira âdando uma imagem de solidez à companhia.
Porém, a companhia se envolveu numa disputa judicial criada por ela mesma com os maiores bancos em atividade no paÃs. A ação deu um mergulho abissal ao fim de 2025. Em cinco dias, preço foi de R$ 10,75 a R$ 1,40.
Em setembro de 2025, a Ambipar obteve da Justiça do Rio de Janeiro uma medida cautelar. A medida impedia a cobrança de vencimentos antecipados de dÃvida em meio a uma disputa com o Deutsche Bank. Em outubro, veio a recuperação judicial.
Em novembro, a Ambipar publicou o balanço do terceiro trimestre sem o relatório gerencial de fluxo de caixa e sua projeção para os próximos dois anos, com o aval da Justiça.