
Há decisões financeiras que estudamos durante semanas. Pesquisamos, comparamos alternativas, lemos opiniões e pedimos conselhos. Outras, capazes de produzir consequências patrimoniais muito maiores, costumam ser tomadas em poucos minutos. O curioso é que essas últimas, justamente por parecerem distantes, são as que mais tendemos a negligenciar. O regime de bens do casamento é um bom exemplo.
Entre 85% e 90% dos brasileiros se casam sob o regime da comunhão parcial de bens. Para muitos, essa nem chega a ser uma escolha consciente. à simplesmente o regime legal aplicado quando o casal não firma um pacto antenupcial. Não há qualquer problema nisso. A comunhão parcial é uma excelente opção para grande parte das famÃlias. O problema é adotá-la sem compreender por que ela é adequada, ou por que talvez não seja.
O mais curioso é que essa decisão costuma ser tomada justamente em um dos momentos em que o casal possui menos patrimônio. Dois jovens iniciando a vida profissional frequentemente têm pouco dinheiro, poucos investimentos e, muitas vezes, nenhum imóvel. A conclusão parece óbvia: "não temos patrimônio relevante, então isso pode ficar para depois". à aà que mora o erro.
Quando um investidor compra uma empresa, ele não paga apenas pelo caixa existente naquele momento. O valor da empresa está, principalmente, na sua capacidade de gerar resultados no futuro. Com as pessoas acontece exatamente a mesma coisa.
O maior patrimônio de quem está começando a vida raramente é o dinheiro acumulado até aquele dia. à o seu capital humano: a capacidade de trabalhar, empreender, construir uma carreira, desenvolver uma profissão e transformar esforço em patrimônio ao longo dos próximos anos.
Conheci um casal que, ao se casar, tinha apenas algumas economias. Naquele momento, a escolha do regime de bens parecia quase irrelevante, afinal, havia pouco patrimônio a proteger. Entretanto, a carreira da esposa como executiva evoluiu de forma extraordinária, enquanto o marido não alcançou o mesmo sucesso profissional. Quinze anos depois, ela havia acumulado um patrimônio de alguns milhões de reais. Infelizmente, o casamento chegou ao fim. Na partilha, metade da riqueza construÃda ao longo da união foi transferida ao ex-marido. Em poucos anos, esse patrimônio já havia sido integralmente consumido. O patrimônio que levou 15 anos para ser construÃdo desapareceu em uma fração desse tempo.
Perceba o paradoxo. A decisão foi tomada olhando para um patrimônio praticamente inexistente, mas produziu efeitos sobre um patrimônio que ainda nem havia sido construÃdo. à como se ela tivesse feito um investimento que 15 anos depois reduzisse suas aplicações pela metade.
Talvez por isso tanta gente descubra as regras do próprio regime de bens apenas quando enfrenta um divórcio ou uma sucessão. Segundo o IBGE, quase metade dos divórcios ocorre antes de o casamento completar dez anos. Para muitos casais, é nesse momento que uma decisão tomada rapidamente anos antes passa a produzir consequências patrimoniais concretas.
Mas o casamento é apenas um exemplo de um comportamento muito mais amplo.
Ao longo da vida, dedicamos enorme atenção a decisões que têm impacto relativamente pequeno sobre o patrimônio e quase nenhuma atenção à s escolhas estruturais que podem defini-lo por décadas. Discutimos diariamente a próxima reunião do Banco Central, a cotação do dólar ou o comportamento da bolsa, mas raramente refletimos sobre temas como regime de bens, planejamento sucessório, seguros, proteção patrimonial ou a organização jurÃdica do patrimônio da famÃlia.
Isso acontece porque confundimos frequência com importância. Os investimentos mudam todos os dias e parecem urgentes. As decisões patrimoniais permanecem silenciosas durante anos e criam a falsa sensação de que sempre haverá tempo para tratá-las depois pois evolui aos poucos. Aqui vale recordar a célebre passagem de Ernest Hemingway em O Sol Também se Levanta, na qual o personagem Mike Campbell explica como foi à falência: "Aos poucos. Depois, de repente."
Planejamento patrimonial não começa quando o patrimônio se torna elevado. Ele começa quando definimos as regras que governarão o patrimônio que ainda será construÃdo. O regime de bens é apenas uma dessas decisões, mas ilustra uma lição que vale para toda a vida financeira: muitas vezes passamos tempo demais tentando aumentar o patrimônio que temos hoje e tempo de menos planejando como proteger o patrimônio que ainda iremos construir.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.