
A inflação de junho abaixo do esperado reforça os argumentos para um corte de juros, mas não é suficiente para concluir que a alta de preços está em uma nova trajetória. Por isso, o Banco Central não deverá mudar seus planos sobre a Selic, de acordo com economistas e analistas de mercado.
O IPCA (Ãndice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) medido pelo IBGE subiu 0,16% em junho, resultado bem abaixo do que o mercado financeiro projetava, de 0,31%. Trata-se da menor variação para o mês de junho em três anos, impulsionada pela queda nos preços de alimentação e bebidas.
A taxa básica de juros, a Selic, está atualmente em 14,25% ao ano, após corte de 0,25 ponto definido pelo Copom na reunião que terminou no dia 17 de junho. A próxima decisão sobre os juros será tomada nos dias 4 e 5 de agosto.
Para o economista Julio Barros, do Daycoval, o dado de junho foi puxado principalmente pela deflação nos preços dos alimentos, que é um movimento sazonal esperado para essa época do ano, mas que havia sido menos intenso nos meses anteriores.
Barros afirma que o resultado não deve alterar de forma estrutural a avaliação do Banco Central sobre a inflação, já que os preços dos alimentos são mesmo voláteis. Segundo o economista, ainda há incerteza sobre a intensidade do El Niño e seu eventual impacto na inflação nos próximos meses, como ocorreu no passado.
Ainda assim, ele avalia que um cenário sem deterioração adicional da inflação, com o conflito externo mais acomodado e o petróleo em patamar mais baixo, favorece a continuidade do ciclo de corte de juros na reunião de agosto.
O relatório de inflação veio após os dados inesperadamente fracos de criação de empregos em maio, que marcaram a leitura mais fraca para o mês desde 2020. Juntas, as leituras mais fracas do que o esperado levaram economistas a precificar cada vez mais outro corte de 0,25 ponto na taxa de juros.
O mercado reagiu positivamente à notÃcia. A Bolsa de Valores disparou 2,96% para 177.866 pontos, e o dólar fechou em queda de 0,29%, a R$ 5,1068. Uma inflação mais baixa do que o esperado contribui para a expectativa de uma Selic menor, o que já reduz as taxas de juros futuros e contribui para a valorização da renda variável.
Na curva de juros futuros, a taxa do DI para janeiro de 2028 estava em 13,85%, em queda de 19 pontos-base ante a sessão anterior. Na ponta longa da curva a termo, a taxa do DI para janeiro de 2035 estava em 14,265%, com recuo de 17 pontos-base. Na semana, essas taxas acumularam baixas de 25 e 14 pontos-base, respectivamente.
Para Kimberley Sperrfechter, economista sênior de mercados emergentes da Capital Economics, a comunicação da instituição monetária em sua reunião de junho pareceu mais cautelosa, sinalizando que os banqueiros centrais estão abertos a mais flexibilização, mas com pausas no ciclo.
"A surpresa de baixa na inflação provavelmente dará confiança aos formuladores de polÃticas para realizar outro corte de 25 pontos-base na próxima reunião em 5 de agosto, embora muito dependa dos dados de inflação e atividade até lá", disse ela à Bloomberg News.
Na última reunião do Copom, os membros do conselho alertaram que a atividade econômica mais forte e a inflação persistente, combinadas com o recente estÃmulo fiscal, poderiam manter as pressões de preços elevadas.
André Braz, economista do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV (Fundação Getulio Vargas) afirma que o BC observa mais outros conjuntos de informações, como expectativas de inflação, atividade econômica, mercado de trabalho e comportamento dos serviços.
"Se os próximos indicadores confirmarem uma desaceleração mais consistente, isso pode abrir espaço para uma discussão diferente mais à frente, mas neste momento, acredito que o Copom continuará adotando uma postura cautelosa", disse.
Braz afirma que é preciso ter cautela ao olhar para o dado do IPCA de junho. Parte dessa surpresa, ele diz, está concentrada em itens mais voláteis, como alimentos e combustÃveis.
"Ainda temos uma inflação de serviços elevada, que costuma ser mais persistente e é justamente um dos principais focos de atenção do BC, e um mês mais favorável é positivo, mas ainda não é suficiente para afirmar que a inflação entrou definitivamente em uma trajetória mais benigna", disse.
Segundo o economista sênior do Banco BMG, Flávio Serrano, os maiores desafios serão para as reuniões do Copom após agosto.
Com a aproximação das eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) lançou medidas para apoiar o crescimento, incluindo o Desenrola Brasil, linhas de crédito subsidiadas e uma suspensão temporária de alguns impostos sobre combustÃveis.
Em seu último relatório de polÃtica monetária, o BC projetou que a inflação alcançaria 5,2% até o final de 2026, permanecendo acima do teto de 4,5% da meta por mais de dois trimestres consecutivos.
Em seguida, ela desaceleraria para 3,7% no quarto trimestre de 2027 âhoje o horizonte relevante do BC para a polÃtica monetáriaâ e finalmente alcançaria 3,1% no final de 2028.