
A Volkswagen informou nesta quinta-feira (9) que reduzirá até pela metade o número de modelos da montadora para cortar custos e aumentar sua competitividade com empresas chinesas. A empresa alemã não disse o que essas mudanças significariam para os trabalhadores, que já vêm se preparando para grandes cortes de empregos e fechamento de fábricas há algum tempo.
A montadora afirmou, em nota enviada à Folha, que a iniciativa não tem impacto imediato nas operações no Brasil, onde as atividades seguem normalmente. A empresa disse também que segue com o plano de investir R$ 16 bilhões até 2028 no Brasil e o desenvolvimento de 17 novos carros para o mercado nacional, com nove deles já lançados.
"Como uma próxima etapa, trabalharemos junto à nossa matriz, na Alemanha, para avaliar se haverá necessidade de ajustes em nÃvel local", acrescentou a Volkswagen. O Brasil é o 3º maior mercado em volume de vendas para a marca no mundo, atrás apenas da China e Alemanha. Em 2025, a Volkswagen do Brasil produziu 538.657 veÃculos em suas três fábricas no paÃs.
O plano global, divulgado após uma reunião do conselho, pareceu reconhecer que a empresa ficou grande e complicada demais e precisa enxugar para sobreviver à transição global dos carros a combustÃvel fóssil para veÃculos elétricos, mudança que abalou muitas montadoras consolidadas e permitiu a ascensão das fabricantes chinesas.
Nos últimos dias, vários veÃculos de mÃdia afirmaram que a empresa estava se preparando para demitir 100 mil trabalhadores até o final da década e fechar quatro fábricas na Alemanha.
Cortes tão drásticos seriam atÃpicos para a Volkswagen e para a indústria alemã, que tendem a preferir mudanças graduais. Representantes dos trabalhadores e lÃderes polÃticos do estado alemão da Baixa Saxônia têm maioria no conselho de supervisão da empresa e haviam sinalizado que não apoiavam cortes profundos.
Mesmo assim, uma redução parece inevitável. A empresa disse que buscaria produzir 9 milhões de carros por ano, em comparação com uma meta de 12 milhões antes da pandemia e 10 milhões mais recentemente. Em um comunicado em vÃdeo, o CEO Oliver Blume declarou que havia necessidade de "eliminar o excesso de capacidade", sugerindo que a empresa ainda poderia fechar fábricas.
"A situação geopolÃtica se tornou mais crÃtica nos últimos 12 meses", comentou Blume. "Os próximos anos decidirão quem terá um papel decisivo na indústria automotiva", destacou.
Mas ele forneceu poucos detalhes, incluindo se ou como a empresa pretenderia continuar sendo a segunda maior montadora do mundo depois da Toyota, medida pelo número de carros vendidos. "As questões urgentes não foram respondidas pelo conselho de supervisão hoje", disse Ferdinand Dudenhöffer, diretor do Center Automotive Research em Bochum, na Alemanha.
A Volkswagen tem 111 instalações de produção em todos os continentes, exceto Austrália e Antártida, de acordo com o site da empresa. Suas marcas incluem Audi, Porsche, Skoda, Lamborghini e Bentley. A Volkswagen também possui 88% da Traton, que fabrica caminhões MAN, Scania e International.
Algumas das marcas da Volkswagen oferecem carros muito semelhantes com designs e recursos ligeiramente diferentes, uma prática que pode aumentar custos e complexidade. A General Motors e a Ford aposentaram marcas como Pontiac, Oldsmobile, Saturn e Mercury anos atrás para simplificar a produção e o marketing.
O anúncio desta quinta deixou em aberto quantos dos 657 mil funcionários da Volkswagen em todo o mundo poderiam perder seus empregos à medida que a empresa reduz a produção. O lucro caiu 28% no primeiro trimestre para 1,6 bilhão de euros (R$ 9,33 bilhões), e suas vendas caÃram 2%.
A unidade Porsche da Volkswagen, que geralmente fornece uma grande parcela dos lucros, sofreu com as tarifas de 25% do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre carros importados. Os modelos esportivos e utilitários esportivos da Porsche são fabricados na Alemanha e exportados para os EUA, um dos mercados mais importantes da marca.
Os problemas da Volkswagen são um sinal preocupante para montadoras ocidentais e japonesas. Em graus variados, todas elas estão lidando com mudanças tecnológicas e concorrência de fabricantes chinesas como BYD e Geely, que estão vendendo carros repletos de recursos de luxo por preços relativamente baixos.
Na União Europeia e no Reino Unido, as montadoras chinesas coletivamente venderam mais veÃculos em maio do que as fabricantes japonesas, de acordo com dados da Associação Europeia de Fabricantes de Automóveis.
Incentivadas por subsÃdios governamentais, as montadoras chinesas começaram a focar em veÃculos elétricos anos atrás, investimentos que lhes deram uma forte vantagem à medida que mais europeus compram esses modelos. Cerca de 1 em cada 5 veÃculos novos vendidos na Europa é elétrico, e as vendas dispararam este ano por causa do aumento nos preços dos combustÃveis causado pela guerra com o Irã.
A Volkswagen é particularmente vulnerável porque, por muitos anos, grande parte de seu lucro veio da venda de carros na China, onde já foi a principal montadora. As vendas da empresa na China despencaram 20% no primeiro trimestre, após quedas significativas por vários anos.
Os temores de fechamento de fábricas abalaram a Alemanha, onde a indústria automobilÃstica âe a Volkswagen em particularâ ocupam espaços sagrados na consciência nacional e são um pilar da economia nacional.
O governo do chanceler da Alemanha, Friedrich Merz, tentou impulsionar a indústria com novos subsÃdios e pressionando autoridades da UE em Bruxelas para flexibilizar algumas regulamentações automotivas, entre outras medidas, na esperança de ajudar as montadoras alemãs a competir melhor com as rivais chinesas.
Merz não abordou os rumores de demissões antes da reunião do conselho da VW desta quinta, mas o porta-voz, Stefan Kornelius, disse a repórteres na semana passada que "nosso objetivo é evitar o fechamento de fábricas na Alemanha".