Aconselhada a não trabalhar, Ticiana Rolim Queiroz rompeu barreira familiar e criou negócio social

"Filha, dos 12 netos, seis são homens. A gente vai colocá-los para trabalhar. Mas não se preocupe, as mulheres vão receber dinheiro a vida toda." Isso foi o que Ticiana Rolim Queiroz, 44, ouviu de seu pai, aos 17 anos.

Ele era vice-presidente do grupo C.Rolim, um dos maiores conglomerados empresariais do Ceará. Cursando administração, Ticiana conta que, naquele momento, ficou sem chão.

Mesmo inconformada, ela não se abateu. "Ele e meus tios, homens, estavam reproduzindo um modelo antigo, e não aceitei aquilo." Começou a vender bijuteria e avisou que não iria mais receber mesada do pai.

O dinheiro das vendas não era muito, mas tinha um grande valor. "Passei a ter um lugar de pertencimento no mundo."

A decisão da famÃlia reflete uma das conclusões da pesquisa "Imaginário de Poder das Mulheres Brasileiras", feita pelo Estúdio Clarice, organização de inteligência e criação que investiga e fomenta o poder feminino por meio de pesquisas e produções audiovisuais, na qual Ticiana foi uma das entrevistadas: mulheres são empurradas para fora dos espaços públicos.

Ticiana parou com as bijuterias quando um amigo a chamou para trabalhar em uma corretora de seguros. Ao mesmo tempo, ávida para obter seu diploma, passou a fazer mais disciplinas na faculdade. "Tinha ânsia de fazer, estudar, me profissionalizar."

Hoje, ela observa que essa ansiedade vinha do fato de querer provar que poderia trabalhar na empresa da famÃlia ou em qualquer outro lugar.

Quatro anos após ouvir que não atuaria no grupo C.Rolim por ser mulher, foi convidada pelo pai e pelos tios para assumir a construção de um shopping.

Não aceitou. Se o negócio não desse certo, diriam que a culpa seria por ser mulher, pensou. Como ainda estava cursando a graduação, disse que não tinha a experiência necessária.

No entanto, o pai a convenceu. Prometeu estar ao seu lado e contratar um especialista. Após muito estudo sobre o projeto, eles concluÃram que o shopping não seria viável.

Três anos após ter começado a trabalhar na imobiliária da famÃlia, já formada e com um MBA em gestão de negócios, seu pai a chamou para participar como ouvinte de uma reunião da C.Rolim Engenharia, outra empresa do grupo.

No encontro, Ticiana disse que deveriam criar uma área comercial e de marketing âe o pai a encarregou da função.

"Aceitei, mas enfrentei muitas barreiras. No sistema patriarcal que a gente vive, aquele processo de masculinização foi se intensificando", afirma. Como diz Ticiana, para chegar a posições de poder, as mulheres acabam tentando copiar os homens.

Ela conta que começou a reproduzir atitudes mais masculinas que, depois, viu não fazerem sentido. Na época, mudou a forma de se vestir, de tratar os outros e até de falar. "Pensava que, para conquistar meu espaço, precisava me comportar como um homem."

Pensava que, para conquistar meu espaço, precisava me comportar como um homem

Esse é outro aspecto revelado pelo levantamento do Estúdio Clarice. Uma a cada três mulheres muda a maneira de falar e de se vestir para ser ouvida e se ajustar a determinados ambientes.

O incômodo veio quando percebeu que estava incorporando o sistema que a oprimia. Dois meses após o nascimento da primeira filha, Ticiana voltou a trabalhar. Ela tinha medo de que achassem ruim contratar mulheres, pois elas engravidam e saem de licença.

Tempos depois, começou a questionar se era isso mesmo que queria. Era diretora, elogiada, ganhava bem, mas estava exausta mentalmente. Com a morte da sogra, em 2013, as reflexões sobre seu propósito de vida cresceram.

Voltou a fazer terapia e, buscando diferentes tratamentos, encontrou a cura para sua alma, como diz. "Precisava resgatar meu lado feminino", lembra.

Continuou trabalhando com a famÃlia, mas mudou seu jeito de liderar. Passou a conversar mais com os colaboradores e mudou da diretoria comercial para a de gente e impacto. Trocou os livros de gestão por tÃtulos de autoconhecimento em busca de algo que ainda não sabia o que era.

Em 2017, ao ler "Um Mundo sem Pobreza", do ganhador do Nobel da Paz Muhammad Yunus, a resposta veio. "Caà no choro e falei: 'à isso, vou unir minha cabeça de negócios com o coração social'", disse. Pouco depois, fundou a ONG Somos Um.

Dividiu-se entre o comando da instituição, uma holding social, e o trabalho na C.Rolim. Até que, em 2022, após conversas com a famÃlia, deixou o grupo.

Na Somos Um, Ticiana faz filantropia estratégica, com organização e metas, para atuar na redução de desigualdades, com foco no empreendedorismo social e na educação.

Usando sua liderança para empoderar outras mulheres, lançou, em 2023, com outras empresas, o Zunne, programa de investimento voltado para empreendedoras do Norte e Nordeste, principalmente negras e indÃgenas.

Hoje, Ticiana lidera de um jeito diferente do que viu homens fazerem. à de forma colaborativa, algo que não pensava antes. "Ter poder é ser capaz de ser instrumento para mudar o coletivo. Achar que é para ficar mais rico e ter mais privilégios é um erro. Isso é egoÃsmo."

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