Recentemente recebi um email de um leitor perguntando quanto patrimônio precisava acumular para nunca mais depender do salário. Respondi que poderia responder exatamente o que ele desejava saber, mas aquela ainda não era a pergunta certa. Ele pareceu surpreso e quis saber qual seria a pergunta correta. Afinal, em sua cabeça, o objetivo era simples: ganhar o máximo de dinheiro possÃvel.
A pergunta certa parece uma diferença sutil, mas ela muda completamente o planejamento financeiro. Muitas pessoas imaginam um patrimônio tão grande que nunca mais precisariam se preocupar com as despesas do dia a dia. O problema é que esse não é um objetivo, é apenas um desejo. E desejos não servem para orientar um plano financeiro.
Antes de calcular o patrimônio necessário, faltava responder a uma pergunta muito mais importante: qual renda seria suficiente para sustentar a vida que ele desejava?
A maioria das pessoas começa tentando descobrir quanto patrimônio precisa acumular. Na realidade, deveria começar definindo qual vida deseja financiar. Quem não sabe quanto pretende receber no futuro jamais conseguirá determinar quanto patrimônio é suficiente.
Imagine alguém dizendo que pretende viajar sem escolher o destino. Qualquer estrada parecerá correta. Da mesma forma, quem não define a renda que deseja nunca saberá se está poupando o suficiente ou apenas acumulando dinheiro sem direção.
Curiosamente, poucas pessoas sabem quanto patrimônio precisam acumular para serem independentes financeiramente. Mas quase todas têm uma opinião sobre qual investimento comprar.
Foi tentando responder à primeira pergunta que apresento uma regra de bolso simples para estimar o patrimônio necessário. Eu a chamo de Regra dos 300, 240, 200 e 150.
Seu funcionamento é bastante intuitivo. Basta multiplicar a renda mensal desejada pelo fator correspondente ao perfil do investidor.
Quem pretende construir sua independência financeira de maneira mais conservadora utiliza o multiplicador 300. Um perfil moderado utiliza 240. Investidores mais arrojados trabalham com 200, enquanto aqueles dispostos a assumir riscos significativamente maiores podem utilizar 150.
Por exemplo, se o objetivo de independência financeira for viver com R$ 10 mil por mês, um investidor conservador precisará acumular aproximadamente R$ 3 milhões. Um moderado necessitará de cerca de R$ 2,4 milhões. Um perfil arrojado poderá atingir a mesma renda com aproximadamente R$ 2 milhões e o agressivo com R$ 1,5 milhões. Quanto maior o risco aceito ao longo da vida, menor tende a ser o patrimônio necessário para produzir a mesma renda.
Esses multiplicadores não foram escolhidos ao acaso. Eles representam diferentes expectativas de retorno lÃquido real anual, ou seja, acima da inflação e lÃquido de imposto de renda. A lógica é simples: quem espera obter cerca de 4% ao ano em termos lÃquidos e reais utiliza o fator 300. Para retornos de 5%, 6% e 8%, os fatores passam para 240, 200 e 150. Em outras palavras, basta dividir os doze meses do ano pela taxa real esperada para chegar ao multiplicador correspondente.
Naturalmente, retornos esperados maiores costumam exigir assumir mais risco. Não existe patrimônio mágico capaz de gerar renda elevada sem volatilidade. Existe apenas uma combinação diferente entre patrimônio acumulado e risco aceito. E lembre-se, mais risco não significa necessariamente mais retorno, mas apenas maior potencial de rentabilidade.
Perceba que a Regra dos 300, 240, 200 e 150 responde apenas à primeira pergunta: qual patrimônio será necessário para produzir determinada renda. Curiosamente, essa costuma ser a parte mais fácil do planejamento financeiro. As perguntas realmente difÃceis vêm depois e respondem ao núcleo do planejamento: como transformar esse número em realidade? A resposta para ele estará no próximo artigo.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.