
O crescimento das plataformas de investimentos internacionais e o rendimento desses ativos nos últimos anos popularizaram seu uso. Milhares de brasileiros passaram a investir no exterior.
A forma de escolha usual costuma ser simples: pesquisam qual ETF comprar apenas analisando o histórico de rentabilidade.
Mas poucos percebem que uma parte do retorno pode desaparecer antes mesmo de o dinheiro chegar à sua conta e ela não estava descontada na análise da rentabilidade passada.
O curioso é que isso pode acontecer mesmo quando o investidor escolhe o ETF "certo".
Imagine duas caixas d'água sendo abastecidas pela mesma tubulação. A água entra na mesma velocidade, mas uma delas possui um pequeno vazamento permanente. Nos primeiros dias, a diferença quase não é percebida. Depois de muitos anos, porém, uma caixa estará significativamente mais cheia que a outra. Em muitos investimentos internacionais, a tributação funciona exatamente dessa forma: um pequeno vazamento permanente que reduz silenciosamente a acumulação de patrimônio.
Em investimentos no exterior, dois ETFs podem acompanhar exatamente o mesmo Ãndice, investir nas mesmas empresas, cobrar a mesma taxa de administração e apresentar o mesmo retorno passado no gráfico. Ainda assim, podem entregar resultados lÃquidos diferentes apenas porque foram estruturados de forma diferente.
Um dos principais fatores por trás dessa diferença é o tratamento tributário dos dividendos.
Quando um brasileiro investe diretamente em um ETF domiciliado nos Estados Unidos que acompanha ações americanas, os dividendos recebidos pelo investidor normalmente sofrem retenção de imposto na fonte de 30% nos Estados Unidos. à um custo que não aparece na taxa de administração nem nos gráficos de desempenho, mas reduz o retorno efetivamente recebido.
Imagine um Ãndice que distribua dividendos equivalentes a 3,3% ao ano. Aproximadamente 1 ponto percentual poderá ser consumido pela tributação antes mesmo de o dinheiro chegar ao investidor. Pode parecer pouco. Mas esse valor deixa de ser reinvestido todos os anos e, justamente por isso, deixa de produzir juros compostos.
Uma alternativa bastante utilizada por investidores internacionais são os ETFs UCITS, muitos deles domiciliados na Irlanda. Quando esses fundos investem em ações americanas, os dividendos pagos pelas empresas ao ETF costumam sofrer retenção de 15%, em vez dos 30% normalmente aplicáveis ao investidor brasileiro que possui diretamente um ETF americano.
A diferença é importante. O investidor não paga 15% ao receber os dividendos. Na verdade, a retenção ocorre antes, quando os recursos entram no próprio fundo. Como consequência, uma parcela maior dos dividendos permanece investida e continua trabalhando a favor do patrimônio.
Existe outra categoria que tem um benefÃcio fiscal ainda melhor. São os ETFs que utilizam uma estrutura conhecida como replicação sintética. Em determinadas situações, essa arquitetura permite reduzir ainda mais o custo tributário incidente sobre os dividendos do Ãndice. Mas nem tudo é de graça. Ela envolve outras caracterÃsticas que também precisam ser avaliadas, como o risco da instituição financeira que fornece essa exposição. Entretanto, usualmente são instituições de grande porte.
Outro detalhe pouco observado diz respeito à polÃtica de distribuição dos rendimentos. Muitos ETFs UCITS possuem versões acumulativas. Em vez de distribuir os dividendos ao investidor, eles reinvestem automaticamente os valores lÃquidos recebidos.
Isso não elimina os impostos incidentes antes de os recursos entrarem no fundo. A vantagem é outra: como o investidor não recebe distribuições periódicas, uma parcela maior do patrimônio permanece aplicada por mais tempo, enquanto a incidência do imposto brasileiro sobre o ganho tende a ocorrer apenas quando esse rendimento for realizado, conforme a legislação vigente.
Nada disso significa que um ETF americano seja necessariamente inferior a um irlandês, ou que todo ETF sintético seja melhor do que um ETF fÃsico. Liquidez, custos, riscos, objetivos do investidor e facilidade operacional também continuam sendo fatores fundamentais na decisão.
A principal lição é mais ampla. Muitos investidores acreditam que ao investir estão escolhendo apenas um Ãndice. Na realidade, também estão escolhendo uma estrutura jurÃdica e tributária. E, no longo prazo, essa decisão quase invisÃvel pode produzir uma diferença maior no patrimônio do que encontrar um investimento que renda alguns décimos de ponto percentual a mais por ano.
Michael Viriato é planejador patrimonial e sócio fundador da Casa do Investidor.