Os paÃses caminham para a redução da carga de trabalho, e as pessoas tendem a ficar mais produtivas com isso, segundo o economista Christopher Pissarides, 78, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2010.
"Diria que, mais do que possÃvel, é provável que a produtividade aumente se você souber que tem menos horas para trabalhar", afirma o acadêmico em entrevista à Folha no Rio de Janeiro.
Com origem cipriota e nacionalidade britânica, Pissarides desembarcou na capital fluminense para palestrar nesta quinta-feira (16) na 25ª Conferência Anual da Saet (Sociedade para o Avanço da Teoria Econômica), realizada na sede do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada).
A visita ocorre em um momento no qual o Brasil discute o fim da escala 6x1 âseis dias de trabalho e um de folga na semana.
Para o economista, a redução da carga horária não gera grande pressão de custos sobre a inflação, mas precisa ser implementada com flexibilidade para se adequar às necessidades dos diferentes setores da economia.
O professor da LSE (London School of Economics) e da Universidade de Chipre ainda afirma que a IA (inteligência artificial) não deve provocar uma "devastação completa de empregos", como algumas previsões indicam.
Quais são os riscos e as oportunidades da IA no mercado de trabalho?
Acho que o maior risco é a incerteza que cerca a IA, porque ela pode substituir empregos, e vai substituir alguns. Mas não penso que vai ser uma devastação completa de empregos, como algumas pessoas estão prevendo.
E [a IA] também pode ser uma ferramenta que ajuda a mão de obra a se tornar mais produtiva, a trabalhar menos horas, com maior produtividade, maior remuneração e mais tempo para passar na praia.
A IA gera mais riscos para quais tipos de empregos?
Atualmente, são os cargos de entrada nas profissões. Porque a aplicação mais frequente da IA é nos grandes modelos de linguagem desde o lançamento do ChatGPT [em 2022].
Começou a ser usada extensivamente para preparar relatórios, realizar tarefas simples, como reservar passagens, e operar bots [robôs] que atendem ligações.
Esses trabalhos são feitos por pessoas [de nÃvel] júnior tradicionalmente. Já estão sendo substituÃdos, talvez 30%, olhando para as vagas de emprego que estão sendo anunciadas. Acho que isso vai crescer.
Quais tipos de empregos podem, por outro lado, se beneficiar mais da IA?
Os cargos de nÃvel sênior. Porque eles ganharam agentes de IA para ajudá-los, que são mais eficientes e muito mais rápidos do que pessoas [de nÃvel] júnior.
No Brasil, o governo quer acabar com a escala de trabalho de seis dias por semana. Qual é a sua opinião sobre a redução da carga de trabalho? Isso é bom ou não?
Nunca se pode dizer de forma geral que isso é bom ou que não é bom. Depende de muitas outras condições.
Não há dúvida de que, historicamente, as horas de trabalho têm caÃdo. Há 20 anos costumávamos trabalhar mais horas durante o ano. Há 50 anos, muito mais.
Como você divide essas horas é uma questão de escolhas sociais, é uma questão de polÃtica. Estou ciente das controvérsias no Brasil.
Acho que as grandes discussões controversas não são realmente justificadas, a menos que haja outras condições associadas a isso, como negociação sindical que pode se tornar muito inflexÃvel quanto a se trabalhar cinco, seis, quatro ou qualquer outro número [de dias].
O que você tem de perceber é que, à medida que o progresso econômico acontece, e a produtividade e a renda aumentam, cada paÃs toma parte disso na forma de tempo extra de lazer.
Agora, na Europa, há muito debate sobre ir de cinco dias para quatro dias, porque as pessoas preferem ter mais tempo de folga. Há uma controvérsia sobre isso, por causa da forma como a remuneração será afetada.
Mas você tem que ter cuidado para não tornar isso muito rÃgido, se vão ser cinco [dias], menos ou mais. Você tem que permitir alguma flexibilidade aÃ.
Então nem todos os trabalhadores poderiam ter a carga de trabalho reduzida da mesma forma?
Penso que é preciso ter mais flexibilidade sobre isso. Se você pegar trabalhadores da indústria de hospitalidade [turismo], principalmente os de restaurantes, transporte, hotéis, obviamente esses não deveriam folgar nos mesmos dias em que os trabalhadores de escritórios folgam. Você tem que organizar isso de forma diferente.
As pessoas podem ser mais produtivas se trabalharem menos horas na semana?
Na verdade, não é incomum que a produtividade por hora aumente quando você reduz as horas [de trabalho]. Penso que essa foi a experiência na França.
Diria que, mais do que possÃvel, é provável que a produtividade aumente se você souber que tem menos horas para trabalhar.
A França é um bom exemplo no caso da redução das horas de trabalho?
Acho que sim. Inicialmente houve hostilidade, ou crÃticas, à polÃtica francesa de redução de horas. Mas se percebeu que [a medida] poderia ser acomodada no mercado de trabalho muito mais facilmente do que as pessoas esperavam.
Pessoas que criticam a redução da carga de trabalho dizem que isso poderia gerar inflação ou afetar o crescimento do PIB. à verdade ou não?
Realmente não acredito que [a redução] geraria inflação. Pode gerar algum realinhamento de preços, mas não seria significativo. Já ouvi o argumento da inflação antes. Nunca acreditei realmente [nele].
Inflação é uma questão diferente. à uma questão para o banco central gerenciar com sua polÃtica monetária. A inflação depende do custo de matérias-primas como petróleo, por exemplo, cujo preço internacional pode subir por causa do que está acontecendo no Oriente Médio [guerra no Irã].
Esse tipo de coisa vai causar inflação. Mas reduzir horas de trabalho em um paÃs não acho que vá gerar inflação. O banco central deveria ser capaz de gerenciar os preços nessa situação.
RAIO-X | CHRISTOPHER PISSARIDES, 78
Economista cipriota com nacionalidade britânica, venceu o Prêmio Nobel de Economia de 2010 por suas contribuições à teoria dos mercados de trabalho. à professor da London School of Economics e da Universidade de Chipre.