Agência apontou falhas em edital do porto de Santos, mas liberou licitação após decisão judicial cair

Agência apontou falhas em edital do porto de Santos, mas liberou licitação após decisão judicial cair

A Antaq (Agência Nacional de Transportes Aquaviários) identificou falhas na licitação de um condomÃnio logÃstico bilionário no porto de Santos e apontou que havia razões para questionar o edital feito pela APS (Autoridade Portuária de Santos), mas decidiu não suspendê-lo porque a oferta já estava paralisada por uma liminar (decisão provisória) da Justiça Federal.

Quando essa liminar caiu, porém, a agência não tomou nenhuma atitude. O negócio, que acabou sendo fechado sem se discutir a legalidade do edital, tem previsão de gerar receitas de mais de R$ 1,06 bilhão, em um contrato com validade de 20 anos e prorrogação.

A Folha levantou detalhes de cada etapa do processo competitivo para implantação de um "condomÃnio logÃstico" no porto de Santos, um projeto que causou polêmica desde a publicação do edital e que acabaria sendo vencido por uma única proposta válida em sua concorrência, o Consórcio Portolog.

Como revelou reportagem do UOL, o Portolog é administrado pelo empresário João Pedro Camargo, cunhado do ministro do TCU (Tribunal de Contas da União) Bruno Dantas, que relatou o voto revisor que restringe a competição de empresas interessadas em disputar o futuro leilão do Tecon Santos 10, vizinho ao condomÃnio logÃstico, previsto para ser a maior transação portuária da história.

LÃder do Consórcio Portolog, a empresa Oitenta & Nove Ponto Um Administração e Participações tem entre seus sócios, além de João Pedro Camargo, João Carlos Freitas de Camargo e Camila Funaro Camargo Dantas, respectivamente sogro e esposa de Bruno Dantas.

O ministro do TCU e os membros da famÃlia Camargo foram procurados pela reportagem para se manifestar sobre o assunto, mas afirmaram, por meio de assessoria, que não comentariam.

A licitação do condomÃnio logÃstico teve seu edital publicado pela APS em outubro de 2025, prevendo apenas 16 dias úteis para que empresas analisassem o projeto, preparassem estudos e apresentassem propostas.

Uma empresa interessada foi desqualificada no processo. A Portolog acabou sendo a única com proposta válida e ganhou a licitação.

Ocorre que, como mostrou a Folha em janeiro, a concorrência já era contestada não apenas por causa do prazo exÃguo, mas por envolver uma área que, para empresas locais, é vital nas operações do porto, enquanto a APS diz se tratar de um espaço de manobras, e "não afeta as operações portuárias".

Documentos obtidos pela reportagem mostram que o problema foi alertado por seis associações nacionais que representam o setor (Abratec, ABTL, ABTP, ABTRA, ATP e Fenop) em novembro do ano passado, mas não houve recuo.

No dia 4 de dezembro, foi aberta a proposta da Portolog, que ainda precisaria ser homologada. No dia 20 seguinte, porém, a Justiça Federal concedeu uma liminar suspendendo a licitação. Três dias depois, a área técnica da Antaq também apontou que o edital tinha "conflito técnico evidente" e que precisava ser revisto.

Um dia após o Natal, em 26 de dezembro, o diretor Alber Vasconcelos, relator do processo na Antaq, concordou com a visão da área técnica, mas alegou que, como havia uma decisão judicial paralisando o processo, deixaria o caso seguir adiante, sem tomar nenhuma atitude administrativa.

A Abratec (Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres) recorreu, alegando que a decisão da Justiça era precária e que não tinha nenhuma relação com a missão administrativa da Antaq. O argumento, porém, não prosperou. O diretor-geral da agência, Frederico Dias, indicado ao cargo pelo ministro do TCU Bruno Dantas, deu validade imediata à decisão do relator. Dias depois, a diretoria colegiada também reconheceu a falha no edital, mas deixou o processo correr.

O cenário mudaria no dia 7 de maio deste ano, quando a Justiça Federal, provocada pela APS, derrubou a liminar e abriu caminho para a retomada da licitação. CaÃa ali, portanto, o argumento da Antaq de que nada poderia fazer sobre o caso.

Na mesma data, a Abratec apresentou um novo recurso à agência, para que ela decidisse sobre a falha no edital. A decisão sobre o recurso foi marcada para a semana seguinte, na 609ª Reunião da Diretoria da Antaq, agendada para 14 de maio. Essa reunião, porém, não aconteceu.

Conforme apurou a reportagem, o ato foi cancelado sob alegação de que houve "problemas técnicos operacionais". Com isso, o recurso foi transferido para a reunião seguinte. Já seria tarde demais.

No próprio dia 14, quando a reunião da Antaq foi cancelada, a APS homologou o resultado do leilão, dando vitória para a Portolog. No dia 15, enviou o aviso à Imprensa Nacional. A homologação foi publicada no Diário Oficial em 18 de maio.

Só no dia seguinte, quando tudo já estava decidido, é que a Antaq marcou o julgamento do recurso para a reunião seguinte, que ocorreria de forma virtual, em 25 de maio. No encontro, a agência decidiu que não cabia paralisação da licitação já resolvida e negou novamente o pedido.

A Folha questionou a Antaq sobre cada uma dessas informações e atos. Por meio de nota, a agência disse que sua "decisão adotada no inÃcio do processo teve natureza cautelar e não representou julgamento definitivo sobre a validade do edital", apesar de o contrato, como mostra a reportagem, já ter sido homologado sem haver nenhuma intervenção da agência.

"Naquele momento, embora tenham sido identificados elementos que justificavam o aprofundamento da análise, a licitação já se encontrava suspensa por decisão judicial", disse. "O indeferimento da cautelar também não significou aprovação ou validação do edital."

Segundo a agência, "o processo permanece pendente de decisão definitiva da diretoria colegiada, a partir dos elementos e subsÃdios técnicos que vêm sendo colhidos para fundamentar a decisão final".

Enquanto a Antaq diz que ainda não tem uma decisão final sobre o assunto, passados nove meses desde a licitação, o caso voltou a parar na Justiça. No dia 16 de junho, o Tribunal Regional Federal da 3ª Região voltou a interromper a concorrência, por "risco concreto de consolidação de situação fática de difÃcil reversão".

à Folha a APS disse que o edital "foi conduzido em estrita observância à legislação e aos normativos aplicáveis", com acompanhamento da Antaq, TCU e Judiciário. "A licitação integra o planejamento estratégico da APS para assegurar a adequada utilização de uma área destinada a ampliar a capacidade logÃstica do Porto de Santos", afirmou.

Segundo a APS, "o empreendimento é, em sua essência, uma plataforma de suporte logÃstico terrestre, focado na ordenação do fluxo de caminhões", não na operação do porto. "A APS reafirma a regularidade dos atos praticados, a segurança jurÃdica do procedimento e seu compromisso com a transparência e o interesse público."

A Abratec não se manifestou. O Mpor (Ministério de Portos e Aeroportos) disse que o edital foi conduzido pela APS "no exercÃcio das competências que lhe foram delegadas" e "em conformidade com suas atribuições legais e regulamentares".

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